Em “007 – Nunca Mais Outra Vez” (1983), James Bond reaparece vivido novamente por Sean Connery, agora mais velho, mais irônico e claramente consciente do próprio peso dentro da franquia. A missão é direta: recuperar bombas nucleares roubadas pela Spectre antes que o tempo acabe. O problema é que o inimigo joga com dinheiro, charme e atraso, enquanto Bond precisa agir sob pressão constante, sabendo que qualquer erro tem custo imediato.
Connery compõe um Bond menos atlético, mas mais estratégico. Seu agente observa mais do que corre, negocia mais do que atira e parece sempre um passo atrás, o que torna cada avanço significativo. Esse desgaste não enfraquece o personagem; ao contrário, humaniza. Bond aqui não domina o ambiente automaticamente. Ele entra em espaços hostis, testa limites e frequentemente precisa recuar para preservar acesso e informação.
O antagonista Maximilian Largo, interpretado por Klaus Maria Brandauer, é um dos grandes trunfos do filme. Ele não precisa gritar nem ameaçar diretamente. Seu poder está na calma, no controle financeiro e na capacidade de comprar tempo. Largo impõe obstáculos administrativos e sociais, não apenas físicos, o que obriga Bond a lidar com um tipo de vilão menos explosivo e mais corrosivo. A tensão vem do fato de que ele sempre parece confortável demais.
No meio desse jogo está Domino Petachi (Kim Basinger), uma presença que o roteiro trata com mais ambiguidade do que o padrão da série. Domino não é apenas interesse romântico automático. Ela hesita, observa, testa confiança e reage ao perigo de forma crível. Basinger traz uma fragilidade que nunca vira passividade, e sua relação com Bond se constrói por negociação, não por submissão imediata.
Irvin Kershner, que vinha de “O Império Contra-Ataca”, dirige o filme com um ritmo mais contido do que outros títulos de 007. A ação existe, mas raramente é gratuita. O suspense nasce do atraso, da informação incompleta e da sensação constante de que Bond precisa escolher entre acelerar a missão ou manter as pessoas vivas ao redor. Não é um filme apressado, e isso joga a favor da tensão.
Há espaço para humor, claro, mas ele surge como ferramenta social, não como piada solta. Bond usa ironia para atravessar ambientes hostis, ganhar segundos preciosos ou desarmar situações constrangedoras. Nem sempre funciona, e quando falha, o filme deixa claro o preço desse estilo.
“Nunca Mais Outra Vez” não tenta reinventar James Bond, mas também não finge que o personagem está congelado no tempo. É um 007 mais cansado, mais cínico e mais consciente das próprias limitações. Isso pode frustrar quem espera espetáculo constante, mas recompensa quem prefere um suspense guiado por decisões, risco real e personagens que não controlam tudo o tempo inteiro.
★★★★★★★★★★


