A maternidade é, sem dúvida, algo que mexe com a cabeça da mulher de forma agressiva. É um impacto físico e psicológico profundo, muitas vezes traumático, que exige apoio emocional, paciência e tempo, recursos nem sempre disponíveis. Primeiro, há o choque físico: as mudanças no corpo, a avalanche hormonal, o parto, a privação de sono, o esgotamento extremo diante do esforço do corpo de manter duas vidas funcionando ao mesmo tempo. O psicológico vem logo atrás e talvez nunca vá embora. É um choque de identidade. Um bug no sistema. O cérebro agora informa: você não é mais quem era. Acostume-se. A mudança é definitiva. Isso acontece com todas as mães, ainda que de formas diferentes. Com os pais, não necessariamente. O peso da responsabilidade é desigual. A criança é da mãe para sempre. O pai pode escolher se fica.
“Morra, Amor”, drama psicológico dirigido por Lynne Ramsay e estrelado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, explora essa nuance extrema da maternidade sem qualquer interesse em amortecê-la. Lawrence interpreta Grace, uma jovem que se muda com o marido para o interior. Durante a gravidez, o casal vive um relacionamento intenso, passional, quase voraz. Após o nascimento do bebê, tudo se rompe. Jackson (Pattinson) se distancia emocionalmente. Mantém uma caixa de camisinhas no carro, mas não toca na esposa. Mostra impaciência ao telefone e, quando está em casa, explode porque a casa está desorganizada. Em vez de tentar compreender o colapso da companheira, leva para casa um cachorro que não para de latir, suja tudo e transforma o espaço doméstico, já sufocante, em algo ainda mais insalubre.
As emoções de Grace estão à flor da pele. Sentindo-se abandonada, indesejada e invisível, ela oscila entre paranoia, psicose e surtos. Passa a enxergar um motociclista, interpretado por LaKeith Stanfield, que se aproxima dela e com quem inicia um suposto romance secreto. Os indícios sugerem que ele talvez não exista. Grace precisa se masturbar para sentir algum prazer, já que Jackson perdeu completamente o desejo por ela. O cotidiano se resume a cuidar do bebê e manter a casa. Ela está sozinha. Radicalmente sozinha.
Mas o caos não está apenas na mente de Grace. Ela destrói o banheiro, atira no cachorro, bate a própria cabeça no espelho, se lança contra uma porta de vidro. Ainda assim, a relação com Jackson é tão violenta e disfuncional quanto seus surtos. Ele provavelmente a trai, se afasta, a ignora, grita, rejeita. Em um dos momentos mais perturbadores, a prende no carro com o cinto de segurança, a leva para longe do filho e abandona o bebê sozinho no berço por minutos intermináveis. Para qualquer observador externo, a situação é insustentável. Para eles, parece rotina. O casal vive como animais acuados, presos a uma dinâmica de ódio e desejo que se retroalimentam.
Uma sessão de terapia sugere que Grace já apresentava transtornos mentais antes da depressão pós-parto, o que relativiza leituras simplistas e reforça a complexidade do quadro. Curiosamente, sua relação com o bebê parece até funcional dentro do caos. O verdadeiro gatilho não é a maternidade em si, mas o isolamento, a ausência de afeto conjugal e o sentimento constante de deslocamento. É ali que tudo desanda.
Com um roteiro que dialoga abertamente com “Repulsa ao Sexo” e “O Bebê de Rosemary”, Ramsay aposta numa linguagem sensorial e fragmentada. A fotografia dissolve fronteiras entre realidade e alucinação, deixando o espectador em permanente estado de dúvida: o que é fato, o que é delírio, o que é metáfora?
Adquirido pela Mubi por 24 milhões de dólares, o filme, cujo orçamento nunca foi oficialmente divulgado, arrecadou cerca de 11 milhões mundialmente. A recepção morna não surpreende. Trata-se de um filme conceitual, abstrato, incômodo, que exige mais do espectador do que está disposto a oferecer em troca. É lento, arrastado, emocionalmente exaustivo. “Morra, Amor” não faz concessões. Definitivamente, não é um filme para todos os públicos, e talvez nunca tenha sido essa a intenção.
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