Em “Assalto em Dose Dupla”, Tripp entra no banco achando que vai resolver a vida em poucos minutos, e o plano desaba rápido, com gente armada ocupando o saguão e clientes virando escudo involuntário. Patrick Dempsey faz esse sujeito comum com pressa de terminar o dia, e a graça inicial vem de vê-lo obrigado a escolher onde parar, para onde olhar e em quem apostar, enquanto o barulho engole qualquer conversa e o relógio do fechamento vira detalhe inútil. Não há espaço para heroísmo ensaiado, só para decisões curtas que custam fôlego e podem puxar uma reação errada do outro lado do balcão.
O confinamento vira a regra quando o banco trava as saídas. A partir daí, a ação se organiza em deslocamentos curtos, de um balcão a outro, de uma mesa a uma coluna, com gente agachada e esperando um intervalo de silêncio entre um disparo e outro para cruzar a sala. O roteiro de Jon Lucas e Scott Moore empilha objetivos que não combinam entre si, e esse choque alimenta a comédia. Quem planejou precisa refazer conta com o que tem na mão, e quem entrou por acaso passa a carregar a obrigação de não virar o estopim de uma tragédia dentro de um espaço apertado.
Balcão, coluna e caixa eletrônico
As duas gangues foram construídas para trombar uma na outra. De um lado, há o grupo que fala baixo, tenta impor ordem e cobra obediência no gesto, no olhar e na arma sempre pronta. Do outro, entram Peanut Butter e Jelly, uma dupla que escolhe nomes e figurino chamativos e erra o tempo de falar, de correr e até de ameaçar. Essa diferença rende situações engraçadas porque ninguém segura o controle por muito tempo. O riso nasce do improviso que custa minutos preciosos, da hesitação antes de avançar e do constrangimento de perceber que o “plano perfeito” não cabe em um banco lotado de gente apavorada.
Tim Blake Nelson aproveita bem esse lado mais bagunçado, puxando a comédia para o corpo, para o jeito de ocupar espaço e para o olhar que pede aprovação antes de agir. Ele não precisa explicar que a dupla é desajeitada, ele deixa isso aparecer quando os dois tentam coordenar passos simples e se atropelam no caminho. O efeito é que o assalto vira um mapa improvisado, em que cada erro cria outro problema palpável, como um refém que muda de lugar, um comparsa que perde a calma ou uma arma que passa para a mão errada.
Porta travada e mãos no ar
No meio desse caos, a presença de Kaitlin impede que Tripp vire apenas alguém tentando sobreviver quieto. Ashley Judd interpreta a caixa com cautela e reação rápida, alguém que conhece as rotinas do balcão e entende, de imediato, o que significa ficar presa ali. Quando Tripp decide ficar perto dela, a escolha não traz alívio. Ele precisa vigiar ângulos, ouvir instruções que se contradizem e gastar energia para manter a respiração sob controle, enquanto ela tenta negociar espaço e tempo para que ninguém faça um movimento que puxe outra rodada de tiros.
Rob Minkoff conduz a história com atenção ao espaço e à circulação dos personagens, e a direção rende quando o banco vira um tabuleiro de abrigo e exposição, com regras mudando a cada minuto. Gavetas, portas, teclados, mesas e vidro ora protegem, ora denunciam, dependendo de quem se mexe e de onde alguém aponta. O melhor do filme está nesse trabalho miúdo de sobrevivência, quando um passo exige olhar para dois lados e quando levantar a cabeça pode render um grito ou um disparo. Quando a encenação relaxa e se apoia em explicações longas, o aperto da situação amolece e a comédia perde precisão.
Há também um prazer específico no tipo de trama que nasce com segredos e contradições dentro de um lugar fechado, e “Assalto em Dose Dupla” tenta tirar proveito disso sem transformar tudo em sermão ou em labirinto impossível de acompanhar. Algumas piadas acertam quando surgem de detalhes práticos, como a dificuldade de se mover com as mãos levantadas, a disputa por uma posição segura atrás do balcão e a tentativa de sussurrar sem que alguém do outro lado escute. Em outros trechos, o acúmulo de confusão cobra pedágio, porque o espectador passa a gastar energia para rastrear quem quer o quê e a cena perde o choque imediato.
Ainda assim, o filme segura um charme de sessão rápida, sustentado por um elenco que entende o jogo e por uma situação que não dá aos personagens o luxo de sentar e pensar com calma. O que permanece é esse retrato de gente presa num lugar comum, tentando não errar o passo, calculando a distância até o próximo abrigo e medindo palavras para não virar alvo. Quando há um curto silêncio, a imagem mais forte é a mais simples, Tripp encostado no balcão, olhando para a porta travada e soltando o ar devagar antes de se mexer.
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