“Amores à Parte” parte de uma ação simples e reconhecível, Carey é traído, ouve o pedido de divórcio e, sem ter onde pousar a cabeça com calma, procura os amigos para não atravessar a noite sozinho. A sequência de decisões nasce do básico, atender o telefone, pegar a chave, atravessar a cidade, sentar num sofá que não é o seu e tentar colocar em palavras o que ainda está quente demais. Esse primeiro movimento já tem preço, porque o consolo vira exposição e toda frase dita cedo demais volta depois em forma de mensagem atravessada, mal entendido ou promessa feita no impulso.
No encontro com o casal de amigos, a conversa muda de trilho e põe “Amores à Parte” num terreno mais escorregadio, Julie e Paul contam que o casamento deles é aberto e descrevem o arranjo com a tranquilidade de quem fala de lista de compras. Para Carey, a informação chega como alívio rápido, uma chance de parar de ruminar por alguns minutos e recuperar a sensação de escolha. Só que esse tipo de acordo não vive só de coragem, vive de regra repetida, de combinado reafirmado, de espera e de coordenação entre pessoas que nem sempre falam a mesma língua quando estão cansadas ou com ciúme.
Sofá emprestado e conversa longa
Dakota Johnson, como Julie, segura o assunto sem transformar a personagem em manual ambulante. Ela entra no jogo com humor e firmeza, mas sempre medindo o que diz para não empurrar alguém para a beirada. Quando Julie defende o casamento aberto, o texto a coloca menos na posição de quem dá lição e mais na de quem administra rotina, define limite, remarca horário, recalcula o que pode ou não pode ser dito na frente de quem. É aí que a comédia ganha corpo, porque a conversa que parecia moderna e leve vira tarefa diária, com gasto de energia e uma soma de pequenos constrangimentos que ninguém quer assumir em voz alta.
Adria Arjona, como Ashley, carrega o lado mais espinhoso da história, a mulher que confessa a traição e pede o divórcio, abrindo uma ferida que não se fecha com um brinde ou um conselho bem colocado. A personagem exige que Carey reaja rápido a informações demais, e isso produz um humor desconfortável, aquele em que a plateia percebe alguém aceitando regra sem ter lido a letra miúda. Arjona dá a Ashley um misto de franqueza e impaciência, e a combinação dá peso ao abalo na rotina do casal, porque qualquer tentativa de “dar certo” passa a depender de conversa difícil, de voltar ao mesmo assunto e de encarar o próprio papel no caos que se arma.
Celular na mão e combinados
Michael Angelo Covino dirige com atenção para o espaço doméstico e para o que as pessoas fazem com as mãos quando estão nervosas, seguram copo, arrumam almofada, pegam o celular, levantam sem motivo, sentam de novo. Em comédia romântica, esse tipo de gesto segura a cena no concreto e impede que a situação vire só ideia solta. A câmera e a encenação apostam em proximidade, em conversa que escorre para briga e em acordo que desmancha com uma frase atravessada. Quando a direção acerta, a graça nasce do desconforto de estar no lugar errado, na hora errada, dizendo a coisa errada, e ter de pagar a conta em tempo perdido e em novas explicações.
O roteiro de Kyle Marvin e do próprio Covino usa a proposta do casamento aberto como gatilho para uma sequência de ações em cadeia, alguém propõe, alguém aceita rápido demais, alguém testa limite, alguém descobre que combinado não se sustenta sem repetição e sem escuta de verdade. “Amores à Parte” rende mais quando larga frase pronta e fica no miúdo, o esforço para alinhar expectativa, a dificuldade de sustentar uma versão “madura” de si mesmo enquanto o corpo pede defesa. A comédia nasce dessa falta de preparo, porque o caos não cai do céu, ele nasce de decisões pequenas, marcadas por pressa, vaidade e um desejo bem humano de não ficar por baixo.
Há momentos em que o filme tenta abraçar muitas variações do mesmo conflito e corre o risco de girar em torno de conversa semelhante, só mudando o cômodo e a pessoa que levanta a voz. Ainda assim, o elenco mantém a energia, e o texto volta e meia encontra uma consequência bem prática para a ideia inicial, um pedido que vira dívida, um conselho que vira cobrança, um gesto de “liberdade” que vira desculpa para fugir da tristeza. Sem entrar em resolução nem detalhar viradas finais, o prazer aqui está em ver personagens acreditando num atalho e descobrindo, na marra, que qualquer arranjo pede trabalho contínuo.
“Amores à Parte” termina com uma impressão concreta, gente adulta encarando o celular, tentando combinar horário, apagando e reescrevendo a mesma mensagem antes de apertar enviar.
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