“Bailarina — Do Universo de John Wick” começa com uma decisão simples e brutal, alguém escolhe ir atrás de nomes, endereços e rostos ligados a uma perda familiar. A partir daí, cada escolha abre um corredor de consequências práticas, noites cortadas por deslocamentos, portas que exigem senha, favores que custam acesso e silêncio. O roteiro põe a protagonista em movimento quase sem descanso, saindo de um treino disciplinado para tarefas que pedem precisão, e essa mudança vira o problema central da história, porque toda tentativa de encurtar caminho cobra tempo, força e atenção redobrada.
Ana de Armas sustenta bem o centro dessa corrida, porque a personagem não se apoia em pose para convencer. Ela corre, erra, recalcula, e o corpo registra isso com respiração curta, mãos que vacilam antes de retomar o controle e uma atenção obsessiva ao que está por perto, qualquer objeto que compre segundos. O melhor da atuação está no modo como a raiva não vira uma máscara única. Às vezes ela vira pressa e troca cuidado por velocidade, às vezes ela vira cautela e ela perde minutos esperando o momento certo, e muitas vezes vira teimosia que suga energia e complica negociações, aumentando o número de pessoas dispostas a cobrar a conta.
Corredores, escadas e improviso
Len Wiseman conduz as cenas de combate com foco em legibilidade, e isso importa num universo em que todo mundo sabe atirar. O trabalho se destaca quando a luta tem geografia clara e quando a protagonista precisa resolver o espaço em tempo real, usando distância, cobertura e improviso, em vez de só avançar. Há sequências em que cada golpe parece exigir cálculo de alcance e leitura do ambiente, e outras em que a montagem encurta demais o caminho entre ameaça e reação, como se pulasse a parte em que um plano dá trabalho, consome fôlego e cobra erros pequenos. Quando a direção acerta, a ação vira tarefa, não vitrine, e a protagonista parece sempre um passo atrasada do que queria, correndo para recuperar o controle.
A presença de Anjelica Huston reforça o lado disciplinador dessa formação, com uma mentora que cobra postura, obediência e resultado sem aceitar sentimentalismo como desculpa. Ela entra em cena para impor regras e cobrar pagamento por cada desvio, seja em punição, seja em restrição de acesso, seja em isolamento. É aí que a história encontra um conflito sólido, a protagonista não enfrenta apenas inimigos externos, ela enfrenta uma hierarquia que limita seus caminhos e obriga desvios longos, com mais espera, mais vigilância e menos margem para improvisar. E cada desvio não é teórico, ele vem com mudança de rota, gente observando, porta que fecha e nova cobrança para reabrir.
Balcões, senhas e favores
O longa aposta na ideia de que, nesse submundo, tudo passa por balcões e combinados. Não basta querer matar, é preciso entrar, pagar, atravessar, manter a reputação em pé e sair sem disparar uma caçada oficial que feche rotas e contatos. Esse mecanismo trava a heroína quando ela tenta resolver tudo na marra, e dá peso às escolhas, porque cada atalho costuma cortar alguma ponte. Em alguns trechos, porém, a narrativa recorre a recados demais para empurrar a trama, e a sensação é de estar apenas aguardando a próxima grande cena de ação justificar a parada. Ainda assim, mesmo nesses momentos, o filme volta a um detalhe útil, quem fala de regra está falando de abrigo, de passagem, de quem atende o telefone quando a coisa aperta.
Ian McShane aparece como peça de ligação desse tabuleiro, trazendo a autoridade calma de quem já viu cruzadas pessoais virarem desastre. A participação dele acrescenta peso ao código de conduta, e o filme ganha quando coloca esse olhar experiente como contraste para a impulsividade da protagonista. Não é uma troca de conselhos bonitos, é um lembrete de logística. Se ela quebra certas regras, perde abrigo, perde informação, perde rotas seguras, e isso muda a conta de cada passo antes mesmo do primeiro disparo. A personagem aprende que não basta vencer uma briga, é preciso ter para onde ir depois, e ter como entrar sem bater na porta errada.
O saldo dramático depende de como o roteiro administra repetição e variação. Quando as cenas alternam confronto direto com aproximações silenciosas, a protagonista parece sempre trabalhando, medindo distância, esperando uma porta abrir, trocando um favor por um minuto de acesso. Quando o filme acelera demais a passagem entre um conflito e outro, parte do peso das consequências se dilui, e algumas relações ficam apenas sugeridas. Ainda assim, o longa mantém a personagem no centro e evita tratá-la como adereço de coreografia, o que ajuda a sustentar o interesse mesmo quando o caminho fica mais previsível. O que prende é ver a personagem tentando manter o plano de pé com recursos limitados, em vez de receber atalhos fáceis.
Há também um mérito em como a ação é usada para marcar custos concretos. A cada deslocamento, a personagem perde sono, perde tempo de preparo, gasta energia para se recompor e precisa coordenar entradas e saídas com precisão para não virar alvo de todo mundo ao mesmo tempo. Ferimentos pedem cuidado improvisado e interferem na postura, mãos vacilam, a respiração denuncia, e a decisão seguinte já nasce contaminada por fadiga e dor. Nessa conta, a vingança deixa de ser frase de efeito e vira rotina de corpo, pausa curta, bolso revirado, olhar atento para a próxima porta, e uma mão que firma de novo antes de seguir.
★★★★★★★★★★


