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A comédia leve e envolvente com Cher, Winona Ryder e Christina Ricci que entrou na Netflix e vale a reprise no fim de semana Divulgação / Metro-Goldwyn-Mayer Studios

A comédia leve e envolvente com Cher, Winona Ryder e Christina Ricci que entrou na Netflix e vale a reprise no fim de semana

Rachel Flax chega com as filhas a um novo endereço e precisa resolver o básico antes de qualquer conversa longa. Achar emprego, encaixar as meninas na escola, reconhecer o bairro, negociar aluguel, abrir caixa, separar roupa, controlar o troco para a semana. Esse começo já aponta o caminho de “Minha Mãe É uma Sereia”. Em vez de uma tragédia única, há urgências pequenas que tomam a manhã e empurram sentimentos para mais tarde, até que eles escapam num comentário atravessado, numa porta batida ou num silêncio no meio do jantar.

Cher interpreta Rachel com carisma e pressa, como alguém que preenche o dia para não encarar a culpa parada no corredor. Ela entra e sai de relacionamentos, flerta sem esconder, troca planos no meio do caminho e deixa as filhas correndo atrás das mudanças, com uniforme amassado, cabelo por fazer e mochila na mão. A narrativa acompanha essa mulher fazendo contas, procurando trabalho, improvisando uma noite com as meninas e tentando reservar um pedaço do dia para si. O efeito aparece dentro de casa. Cada promessa feita em cima da hora, cada atraso e cada “depois a gente vê” força as filhas a reorganizarem horário, expectativas e até o que elas contam para os colegas.

Mesa de jantar e atrasos

Charlotte é o centro do conflito, sempre tentando dar ordem ao que ela enxerga como excesso. Winona Ryder faz essa adolescente com os ombros tensos, o rosto sério e um olhar que mede a mãe da cabeça aos pés antes de qualquer abraço. Ela observa roupa, tom de voz, horários e o jeito como os outros encaram Rachel, e responde com uma disciplina que parece pedido de chão firme. A religião entra como rotina concreta. Banco de igreja, missa, confissão, conversa com freiras, leitura, promessa repetida como quem repete um horário. Quando Rachel chega tarde, Charlotte não discute só moral. Ela cobra o tempo perdido esperando, a vergonha na escola, a energia gasta tentando ser adulta antes da hora.

A filha mais nova, Kate, atua como termômetro da casa e como alívio em momentos em que a conversa azeda. Ela circula pelos cômodos, repara no que os adultos fingem que não viram e solta verdades com franqueza de criança, às vezes no pior instante. Essa presença muda o clima porque Kate puxa brigas pequenas que viram grandes, e também consegue quebrar o silêncio quando ninguém quer ser o primeiro a falar. Há cenas em que o conflito nasce de coisas simples, uma roupa que some, um prato largado na pia, um comentário alto demais na frente de um visitante. A comédia aparece aí, no esforço de três pessoas dividindo o mesmo espaço com regras que não combinam.

O recomeço também tem cara de agenda, e o filme ganha chão quando acompanha o que dá trabalho manter em pé. Rachel precisa buscar as filhas, lidar com recado de escola, aparecer em evento, resolver compra do dia com sacola e lista curta, e ainda arrumar tempo para um encontro. Quando ela troca um compromisso por outro, alguém fica esperando no sofá. Quando ela promete e não cumpre, alguém guarda a frase para usar depois. E quando tenta compensar com presente, a tentativa vira mais um assunto na mesa, com talher batendo e comida esfriando enquanto ninguém decide se come ou discute.

Porta da igreja e escola

A entrada de um adulto interessado em Rachel muda a dinâmica dentro de casa sem resolver nada na base da boa vontade. Bob Hoskins surge como um homem prático, atento ao que acontece na cozinha e no corredor, do tipo que pergunta se alguém já comeu e repara quando a luz do quarto fica acesa até tarde. Para Rachel, aceitar ajuda implica abrir a porta, dividir regras, admitir limites e deixar alguém reparar na bagunça que ela tenta esconder com charme. Para as filhas, sobretudo Charlotte, isso vira mais um teste de confiança, porque cada aproximação acende a pergunta guardada, quanto tempo essa pessoa fica e quanto trabalho dá quando ela vai embora.

Richard Benjamin organiza as cenas sem transformar a história em sermão sobre maternidade ou adolescência. As discussões acontecem onde elas deixam rastro. Sala, mesa, carro, porta da escola, igreja. O período aparece em gestos e objetos de rotina, rádio ligado, roupa, penteado, o jeito como vizinhos olham e comentam, sem virar aula. Nesse desenho, o desejo de Charlotte também recebe espaço sem virar deboche. O sonho de virar freira entra como tentativa de construir uma vida com regras e horários que não mudam toda semana, algo que ela não encontra na casa da mãe. Rachel, por sua vez, não vira vilã nem heroína. Ela erra, insiste, volta atrás, tenta compensar, perde a paciência e pede desculpas, sempre esbarrando no fato de que cada desculpa precisa caber numa rotina que já está lotada.

Fica a lembrança de uma família tentando caber na própria casa, ajustando horários, portas e expectativas como quem ajusta a barra de uma roupa na pressa. Quando Rachel e as filhas conseguem atravessar um jantar sem alguém levantar da mesa para fugir da conversa, a cena já tem peso. Pratos ali, cadeira arrastando, uma pausa antes da próxima frase, e a decisão simples de ficar sentado mais um minuto.

Filme: Minha Mãe É uma Sereia
Diretor: Richard Benjamin
Ano: 1990
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★