“Max — O Cão Herói” abre com o trabalho do cão em ambiente militar e já coloca um problema na sala de estar quando ele volta para casa. Sem o tutor e fora do lugar onde foi treinado para agir, Max chega arisco, late para desconhecidos e recua ao menor gesto de carinho. A família muda detalhes que antes passavam batido. Portão trancado, visita avisada, corredor livre, guia pendurada na porta. A pergunta aparece sem cerimônia, se dá para manter o cachorro ali sem transformar o quintal em risco diário. O luto do soldado morto existe, mas o filme deixa essa dor surgir no acúmulo de tarefas e na falta de jeito para falar do assunto durante o jantar.
Justin assume a parte mais dura desse ajuste porque ele resolve tentar, mesmo quando seria mais fácil manter distância. Josh Wiggins interpreta o adolescente com um esforço visível de segurar a irritação enquanto aprende o básico, onde ficar, quando encostar, quando recuar. Ele erra, leva um susto, volta no dia seguinte e repete, como quem marca presença no mesmo horário para não perder o passo. Em vez de uma cena de grande virada, a aproximação nasce em pequenas rotinas. Tigela no chão, água trocada, mão estendida e retirada, caminhada curta até o fim da rua. Cada tentativa custa tempo que já era curto, e cobra energia num garoto que ainda precisa acordar cedo, encarar sala de aula e responder a perguntas atravessadas sobre o irmão.
Treino no quintal e guia
Boaz Yakin dirige com atenção a ações simples e efeitos imediatos. Quando Max se assusta, alguém segura firme, muda o caminho, pede licença na calçada e puxa o cachorro para perto do muro. O longa prefere cenas de convivência e treino a falas longas, e ganha força quando acompanha o esforço de encaixar o cotidiano no comportamento do animal. O que era um passeio vira uma sequência de decisões, por onde passar, a que distância de uma bicicleta, em qual horário para pegar a rua menos cheia. Até o tom de voz vira regra, porque qualquer aceleração vira rosnado, e qualquer hesitação vira puxão.
A mãe, vivida por Lauren Graham, segura o lado doméstico sem romantizar a situação. Ela precisa tocar a casa, acompanhar Justin e lidar com o próprio luto, ao mesmo tempo em que administra o básico do dia. Recado no telefone, campainha tocando, vizinho reclamando, alguém sugerindo que o cachorro seja levado embora. A personagem passa boa parte do tempo prevenindo a próxima confusão. Tranca portões, combina quem entra, quem sai e em que momento, e ainda tenta manter o ambiente minimamente estável. Numa mesa de cozinha, ela faz contas, responde mensagens e, quando levanta os olhos, Max está de novo em posição de alerta. O trabalho dela não é “sentir”, é segurar as pontas para que a casa funcione.
Robbie Amell aparece como Kyle, o militar ligado a Max, e suas cenas iniciais definem o vínculo perdido que agora pesa sobre todo mundo. O roteiro indica por que o cachorro reage com tanta resistência ao voltar para um ambiente comum e por que a família não enxerga a situação como simples adoção. A presença de Kyle também pesa sobre Justin. O garoto convive com a comparação silenciosa, com fotos, com elogios repetidos, com a sensação de que qualquer gesto será lido como homenagem ou como recusa. Essa mistura de orgulho e raiva aparece em atitudes pequenas, como travar uma conversa, evitar um assunto e sair mais cedo de casa para não encarar mais uma pergunta.
Portão, vizinhos e rua
Fora de casa, a história adiciona conflitos ligados ao bairro e a decisões impensadas típicas de adolescência. Justin circula com um amigo que gosta de provocar situações e testar limites, e isso coloca Max em cenários onde barulho, movimento brusco e aproximações inesperadas podem terminar mal. O filme acerta quando coloca o risco em coisas concretas. Uma porta batendo, uma moto passando perto, alguém chegando por trás sem aviso, um atalho escolhido só para cortar caminho. Nesses momentos, Justin decide rápido. Aperta a guia, puxa para o lado, pede espaço, segura a respiração e tenta não perder o controle na frente de quem está olhando.
Há passagens em que o longa busca emoção com atalhos, mas ele fica mais forte quando volta ao básico, convivência, treino e tarefas que se repetem. A relação entre Justin e Max cresce em passos pequenos. O garoto aprende a não invadir o espaço do cachorro, a esperar o animal aceitar a presença antes de encostar, a reconhecer o instante de parar e voltar para casa. O roteiro retorna ao mesmo tipo de cena com variações mínimas, e é nessa repetição que aparece o esforço real de construir confiança, como quem troca o ritmo de uma caminhada para não provocar mais um susto.
“Max — O Cão Herói” entrega um drama familiar voltado para um público amplo, com aventura na medida e foco na reaproximação entre um garoto e um cão treinado para sobreviver em outro tipo de mundo. Quem procura ação encontra sequências bem organizadas sem apelo cruel, e quem procura uma história de cuidado encontra um retrato direto de quanto tempo e coordenação uma convivência pode exigir quando a casa precisa se adaptar. A cena que fica é simples, Justin abre o portão, confere a guia com a mão e sai com Max para uma volta curta, sem pressa, como parte do dia.
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