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Netflix hoje: Daniel Craig e Christoph Waltz deixam James Bond com gosto de veneno e luxo Susie Allnutt / Metro-Goldwyn-Mayer

Netflix hoje: Daniel Craig e Christoph Waltz deixam James Bond com gosto de veneno e luxo

Uma das razões do sucesso de uma franquia é, sem dúvida, a capacidade de reinventar-se. No caso de “007”, passaram-se seis décadas e James Bond ganhou meia dúzia de rostos, ao passo que — e essa é a verdadeira magia — preservou-se a essência de glamour e idealismo de um mundo que ficou para trás há algum tempo. O espião mais famoso da indústria cultural é uma fênix que sempre volta mais forte e com alguma carta na manga do terno de grife, mérito de diretores como Sam Mendes e filmes a exemplo de “007 Contra Spectre”, uma aula sobre o poder do cinema. Despretensiosamente, o roteiro de Jez Butterworth, John Logan, Neal Purvis e Robert Wade remodela o personagem, sem desviar-se de todo das histórias criadas por Ian Fleming (1908-1964) nos anos 1950.

Um homem melancólico

Em “007: Operação Skyfall” (2012), Mendes mostrara um MI-6 combalido, tentando reerguer-se após uma falha de James Bond.

Isso parece ter abalado o moral do espião, que agora viaja à Cidade do México para investigar a conspiração que tem vitimado uma leva de agentes. Recobrar o prestígio é uma questão de honra para o 007, e ele parte numa jornada que poderia lembrar a de Bruce Wayne ou qualquer outro super-herói. Mendes tira proveito de todos os talentos de que dispõe, e a trama oscila das peripécias quase sobre-humanas de um Bond cansado para um vilão à altura, marca da franquia. Ainda que Daniel Craig tenha se revelado um dos melhores intérpretes do Agente 007 — depois de Sean Connery (1930-2020), que soube transcender a urgência do entretenimento e deu-lhe uma alma —, Christoph Waltz rouba a cena.

O malvado

“007 Contra Spectre” seria outro filme sem Waltz. Ernst Stavro Blofeld é a velha pedra no sapato de Bond, mas o ator é habilidoso em descobrir nuanças pouco óbvias para o vilão, a quem Max von Sydow (1929-2020) pintou com tintas shakespearianas. Há lugar para romance, como se assiste no desfecho, com o idílio do espião e Madeleine Swann, a Bond girl da vez, a cargo de Léa Seydoux, mas nada se compara a ter um antagonista autoirônico, que parece nos advertir de que aquilo tudo é só cultura pop.

Filme: 007 Contra Spectre
Diretor: Sam Mendes
Ano: 2015
Gênero: Ação/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.