Digam o que quiserem os detratores, mas quando se pensa em 007, pensa-se em Sean Connery (1930-2020). O Rei de Edimburgo segue como a verdadeira encarnação de James Bond, uma vez que definiu o personagem para uma leva de atores. Elegância viril, ironia afiada e um físico naturalmente musculoso eram o verniz de um personagem complexo, nascido com propósitos para muito além da indústria cultural. Boa parte disso está presente em “Nunca Mais Outra Vez”, um “007” meio obscuro, quiçá envergonhado, mas pleno de camadas. No 14º longa da série, Irvin Kershner (1923-2010) aposta todas as fichas no poder de sedução de Connery, o grande predicado de um momento não muito feliz de Bond.
O bom filho
Depois de um hiato de doze anos, desde “Os Diamantes São Eternos” (1971), de Guy Hamilton (1922-2016), Connery volta a embrenhar-se pelos conflitos existenciais de James Bond, misturados a boa dose de adrenalina. Kevin McClory (1924-2006) e Lorenzo Semple Jr (1923-2014) propõem uma releitura de “007 contra a Chantagem Atômica” (1965), dirigido por Terence Young (1915-1994), explicando que 007 deve impedir que a Spectre roube ogivas nucleares. Os roteiristas observam a cadência das histórias criadas por Ian Fleming (1908-1964) nos anos 1950, e incluem aos poucos mulheres tão magnéticas quanto traiçoeiras, um componente essencial para o sucesso da fórmula. Enquanto Fatima Blush empenha-se em sua missão terrorista, Domino Petachi sofre como a amante de Maximillian Largo, numa diatribe contra e a favor do belo sexo, representado por Barbara Carrera e Kim Basinger.
É preciso dizer nunca
Kershner garante que o espectador fique até o desfecho abusando da habilidade de seu elenco, com Connery sempre a um passo de materializar as epifanias de Bond, sem deixar de lado os vilões. Na pele de Largo, Klaus Maria Brandauer duela com o herói, mas o contraponto com o Ernst Stavro Blofeld de Max von Sydow (1929-2020) é ainda mais estimulante, pela metódica teatralidade dos dois. Ao fim dos 134 minutos, resta uma nostalgia boa, de encontros que só mesmo o cinema é capaz de proporcionar. E que não irão ocorrer nunca mais.
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