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Acabou de chegar na Netflix: o 007 mais elegante, sombrio e humano de Sean Connery Divulgação / Warner Bros.

Acabou de chegar na Netflix: o 007 mais elegante, sombrio e humano de Sean Connery

Digam o que quiserem os detratores, mas quando se pensa em 007, pensa-se em Sean Connery (1930-2020). O Rei de Edimburgo segue como a verdadeira encarnação de James Bond, uma vez que definiu o personagem para uma leva de atores. Elegância viril, ironia afiada e um físico naturalmente musculoso eram o verniz de um personagem complexo, nascido com propósitos para muito além da indústria cultural. Boa parte disso está presente em “Nunca Mais Outra Vez”, um “007” meio obscuro, quiçá envergonhado, mas pleno de camadas. No 14º longa da série, Irvin Kershner (1923-2010) aposta todas as fichas no poder de sedução de Connery, o grande predicado de um momento não muito feliz de Bond.

O bom filho

Depois de um hiato de doze anos, desde “Os Diamantes São Eternos” (1971), de Guy Hamilton (1922-2016), Connery volta a embrenhar-se pelos conflitos existenciais de James Bond, misturados a boa dose de adrenalina. Kevin McClory (1924-2006) e Lorenzo Semple Jr (1923-2014) propõem uma releitura de “007 contra a Chantagem Atômica” (1965), dirigido por Terence Young (1915-1994), explicando que 007 deve impedir que a Spectre roube ogivas nucleares. Os roteiristas observam a cadência das histórias criadas por Ian Fleming (1908-1964) nos anos 1950, e incluem aos poucos mulheres tão magnéticas quanto traiçoeiras, um componente essencial para o sucesso da fórmula. Enquanto Fatima Blush empenha-se em sua missão terrorista, Domino Petachi sofre como a amante de Maximillian Largo, numa diatribe contra e a favor do belo sexo, representado por Barbara Carrera e Kim Basinger.

É preciso dizer nunca

Kershner garante que o espectador fique até o desfecho abusando da habilidade de seu elenco, com Connery sempre a um passo de materializar as epifanias de Bond, sem deixar de lado os vilões. Na pele de Largo, Klaus Maria Brandauer duela com o herói, mas o contraponto com o Ernst Stavro Blofeld de Max von Sydow (1929-2020) é ainda mais estimulante, pela metódica teatralidade dos dois. Ao fim dos 134 minutos, resta uma nostalgia boa, de encontros que só mesmo o cinema é capaz de proporcionar. E que não irão ocorrer nunca mais.

Filme: Nunca Mais Outra Vez
Diretor: Irvin Kershner
Ano: 1983
Gênero: Ação/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.