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Comédia dramática da HBO Max transforma a terapia que faltou na adolescência em um desabafo adulto Divulgação / Gracie Films

Comédia dramática da HBO Max transforma a terapia que faltou na adolescência em um desabafo adulto

“Quase 18”, dirigido por Kelly Fremon Craig, acompanha Nadine Franklin (Hailee Steinfeld) no momento em que tudo o que parecia estável começa a sair do lugar. Adolescente sarcástica, emocionalmente intensa e pouco diplomática, ela vê sua rotina desmoronar quando a melhor amiga, Krista (Haley Lu Richardson), passa a namorar seu irmão mais velho, Darian (Blake Jenner). O que para os outros soa como uma mudança comum vira, para Nadine, uma perda concreta de território afetivo.

A escola é onde esse deslocamento fica mais visível. Nadine circula pelos corredores como alguém que perdeu o mapa: tenta manter conversas, força piadas, exagera reações. O humor surge como defesa imediata, quase um pedido de socorro disfarçado, mas nem sempre funciona. Cada tentativa de se manter relevante cobra um preço social, seja um silêncio constrangedor, seja a sensação de estar sempre um passo atrás dos outros.

Em casa, o conflito ganha outro peso. Darian ocupa o espaço com naturalidade, Krista passa a fazer parte da dinâmica familiar, e Nadine se sente empurrada para a margem. A relação entre irmãos é tensa não por grandes brigas, mas por pequenas frustrações acumuladas, aquelas que ninguém resolve porque parecem pequenas demais. Hailee Steinfeld traduz isso com precisão, fazendo de Nadine uma personagem difícil, às vezes exaustiva, mas sempre reconhecível.

Sem conseguir recuperar o vínculo perdido, Nadine tenta abrir uma nova rota emocional ao se aproximar de um colega mais sensível e atento. Essa amizade nasce sem promessas grandiosas, marcada por conversas desajeitadas e avanços lentos. O filme acerta ao tratar esse laço com cautela, mostrando que confiança não surge como solução mágica, mas como algo que exige tempo, escuta e disposição para baixar a guarda.

Um dos méritos do roteiro de Kelly Fremon Craig está em não transformar os adultos em vilões caricatos ou salvadores iluminados. Professores e familiares aparecem como figuras limitadas, muitas vezes incapazes de oferecer o acolhimento que Nadine espera. Isso não é crueldade do filme, mas honestidade: crescer envolve descobrir que nem toda autoridade tem respostas, e que algumas portas existem apenas para impor limites.

A comédia funciona justamente porque nasce do desconforto. As piadas não aliviam totalmente a tensão; elas a expõem. Quando Nadine tenta ser engraçada, o riso quase sempre vem acompanhado de constrangimento ou arrependimento imediato. É um humor que observa o erro no momento em que ele acontece, sem transformar isso em lição explícita.

“Quase 18” se destaca por tratar a adolescência sem romantizar o caos nem dramatizá-lo em excesso. O filme entende que amadurecer não é vencer conflitos, mas aprender a conviver com perdas parciais, reposicionar expectativas e aceitar que algumas relações mudam sem pedir permissão. Ao final, o que fica não é uma resposta definitiva, mas a sensação de que Nadine encontrou um jeito possível de seguir em frente, mesmo sem garantias.

É um retrato honesto, às vezes desconfortável, frequentemente engraçado, que ganha força justamente por não tentar ser maior do que a experiência que retrata.

Filme: Quase 18
Diretor: Kelly Fremon Craig
Ano: 2016
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.