Em “Amores à Parte”, dirigido por Michael Angelo Covino, Carey (Kyle Marvin) vê sua vida sair do eixo quando Ashley (Dakota Johnson) pede o divórcio. Sem saber exatamente para onde ir, ele recorre aos amigos Julie (Adria Arjona) e Paul, um casal que se apresenta como exemplo de equilíbrio moderno. O conflito central surge quando Carey aceita se aproximar desse modelo sem entender completamente as regras, apostando que boa vontade e humor serão suficientes para atravessar o momento difícil.
A casa de Julie e Paul vira abrigo imediato, um espaço onde Carey encontra escuta, companhia e a sensação provisória de pertencimento. Ali, o casamento aberto do casal é tratado como algo resolvido, quase didático, uma solução prática para evitar ciúmes e conflitos. Carey aceita a lógica mais por cansaço emocional do que por convicção, e esse desequilíbrio inicial passa a cobrar seu preço. O conforto vem rápido, mas a insegurança se instala no mesmo ritmo.
Acordos que parecem simples
Julie e Paul apresentam suas regras com naturalidade, como se fossem autoexplicativas. Para eles, tudo funciona porque há diálogo e liberdade. Para Carey, no entanto, a experiência se mostra mais confusa do que libertadora. Ao tentar se adaptar, ele percebe que viver dentro de um acordo exige mais controle emocional do que ele tem naquele momento. A promessa de leveza começa a se chocar com limites pouco claros e expectativas diferentes.
Conforme as interações aumentam, situações pequenas ganham peso. Conversas que deveriam ser privadas se espalham, encontros casuais mudam dinâmicas e decisões impulsivas criam desconfortos difíceis de desfazer. O humor surge como defesa: piadas, ironias e comentários atravessados tentam aliviar a tensão, mas raramente resolvem o problema. O riso existe, mas dura pouco, porque não impede que as relações fiquem cada vez mais frágeis.
Quando o humor não dá conta
A comédia funciona justamente nesse espaço de erro e improviso. Os personagens tentam consertar situações no meio do caminho, explicam demais, recuam tarde demais e seguem criando novos ruídos. Uma conversa à mesa vira um ajuste de contas informal; um encontro inesperado vira motivo de silêncio prolongado. O principal obstáculo passa a ser a diferença entre o que cada um acredita estar combinado e o que, de fato, consegue sustentar.
Há um ponto em que a leveza deixa de proteger e passa a expor. Carey insiste em tratar tudo como algo administrável, ou melhor, age como se pudesse separar o que sente do que faz, mas o grupo reage impondo limites práticos. Convites deixam de acontecer, o clima muda e a sensação de pertencimento começa a ruir. As consequências aparecem menos em brigas explícitas e mais em afastamentos visíveis.
Liberdade tem custo
Quando o arranjo começa a se desgastar, Julie, Paul e Carey precisam renegociar o básico para preservar o que ainda importa. A casa, antes acolhedora, se transforma em um espaço de tensão cotidiana, onde qualquer gesto pode ser interpretado como avanço ou recuo. Ninguém concorda exatamente sobre quem decide quando algo passa do limite, e essa indefinição mina a confiança entre eles.
“Amores à Parte” prefere acompanhar essas pequenas decisões que se acumulam até ficarem grandes demais para ignorar. A comédia não julga seus personagens, mas também não os protege das consequências. O filme termina observando como escolhas feitas com leveza podem exigir reajustes dolorosos depois, registrando apenas o que muda de lugar: quem se aproxima, quem se afasta e o que deixa de caber na relação como antes.
★★★★★★★★★★


