Benjamin Button nasce com pele enrugada, respiração difícil e um corpo que assusta a sala de parto. Em vez de virar motivo de comemoração, ele vira problema imediato para quem o recebe, e a primeira decisão é tirá-lo de cena. O bebê é deixado onde outros velhos passam os dias, entre cadeira de roda, frascos de remédio na cabeceira, lençol trocado com pressa e conversa baixa no corredor. “O Curioso Caso de Benjamin Button” começa nesse ponto sem glamour, e a conta aparece cedo, porque existir ali significa pedir espaço, aceitar “não” e aprender a não chamar atenção quando alguém entra no quarto.
Brad Pitt interpreta Benjamin com um cuidado de quem testa o terreno antes de dar um passo maior. A transformação física, com próteses e ajustes de corpo, não fica só na maquiagem, ela muda o modo como ele é atendido no balcão, encarado na calçada e medido por desconhecidos que exigem justificativa. Quando Benjamin decide sair do abrigo e procurar trabalho, ele paga com deslocamento e exposição, volta para casa com a mesma pergunta repetida por estranhos, carrega a sensação de estar sempre “fora do lugar” e gasta energia explicando o que outros não precisam explicar. O que poderia ser fantasia leve vira rotina de constrangimento, ida e volta, e a necessidade de escolher onde entrar e onde passar direto.
Roupas, balcão e olhares
O encontro com Daisy começa cedo e nasce mais de curiosidade do que de promessa romântica. Ela entra e sai da vida dele como alguém que tem aula, ensaio e planos que mudam com a idade, enquanto Benjamin precisa justificar o próprio corpo a cada etapa. Cate Blanchett dá a Daisy uma força nervosa, alternando coragem e impaciência, o que impede o romance de virar peça decorativa. A diferença de idades, que no papel parece jogo simples, vira agenda difícil, horários que não batem, visita cancelada, recado perdido e a sensação de que um minuto de atraso custa semanas. Quando eles se encontram, o gesto é sempre cercado por preparo, por deslocamento, por aquela chance real de o dia não cooperar.
A narrativa registra a passagem dos anos em coisas que ocupam espaço, fotografia guardada, data anotada, calendário riscado, mala pronta antes da hora, carta dobrada e guardada no bolso como lembrete. Em vez de resolver uma vida em discurso, o roteiro deixa que esses objetos voltem para a mesa quando doem, porque lembrança também exige mãos e tempo para ser reaberta. A cada salto de anos, Benjamin precisa reaprender o lugar que ocupa, já que o corpo muda enquanto os vínculos continuam pedindo resposta e cuidado. A solidão que aparece daí não vem de pose, vem de chegar num endereço e descobrir que a pessoa certa já saiu, vem de bater na porta errada, vem de guardar de volta um papel que parecia garantir um encontro.
Entre uma visita e outra, a história insiste na logística do afeto. Benjamin guarda um retrato no bolso, carrega um endereço anotado num papel e atravessa a cidade para tentar encaixar um encontro numa janela curta. Quando ele chega cedo demais, espera; quando chega tarde, perde. A narrativa não trata esse desencontro como charme, porque o tempo gasto em ônibus, bonde e corredor vira cansaço que não volta, e a vida muda enquanto ele ainda está no caminho. O romance se mede por tarefas simples, levantar, vestir, sair, procurar, perguntar, voltar, e às vezes repetir tudo no dia seguinte.
Fotografia no bolso e mala
Fincher conduz a história sem acelerar para um ponto de chegada, e essa escolha evita que tudo vire só um truque de premissa. A duração longa dá peso ao acúmulo de dias, de aniversários que não coincidem, de promessas que exigem retorno e de deslocamentos que drenam mais energia do que a conversa em si. Ao mesmo tempo, a montagem corta antes de cansar, salta o que seria repetição e preserva o que fica pendente entre um encontro e outro. Quando o romance encontra um intervalo de calma, ele não aparece como prêmio fácil, aparece como tarefa que pede coordenação e aceita, a contragosto, que a conta do tempo nunca fecha.
Julia Ormond entra como presença que organiza lembranças e ligações, e isso puxa o relato para perto de uma casa, de uma cadeira ao lado da cama e de uma conversa dita com calma quando o corpo já pede descanso. Em torno dela, o elenco sustenta uma rede de passagem, gente que acolhe por um tempo, oferece teto, dá conselho, cobra responsabilidade e some quando o turno acaba. Essa comunidade temporária dá peso ao percurso de Benjamin, porque ele atravessa décadas com ajuda, com favor e com pequenas trocas, e também com o constrangimento de precisar pedir de novo o que parecia garantido. A fantasia, aqui, não livra ninguém de agenda e de cuidado, ela só muda o jeito como o relógio cobra.
“O Curioso Caso de Benjamin Button” fica mais firme quando troca a ideia de milagre por consequência prática. Uma aparência fora do esperado muda o jeito como um homem consegue emprego, atravessa uma porta, entra num lugar cheio e inicia uma conversa sem ser interrompido. O amor não apaga a conta do tempo, apenas dá motivo para continuar pagando, com visita, deslocamento e paciência. E quando a história termina de passar por suas voltas, o que fica é um gesto concreto, uma mão fechando uma fotografia e a outra apagando a luz para encerrar a noite.
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