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Um baile dentro de um hospital psiquiátrico: a noite elegante que vira prova de sobrevivência (Prime Video) Divulgação / Amazon Prime Video

Um baile dentro de um hospital psiquiátrico: a noite elegante que vira prova de sobrevivência (Prime Video)

Eugénie vive dentro de casa com um segredo que não cabe na mesa da família. O que ela diz ver e ouvir vira motivo de medo, depois vira prova de “desvio”, e a punição chega em forma de deslocamento forçado. O pai e o irmão a levam para La Salpêtrière e cortam a rota de volta, como quem resolve um problema de logística e reputação. “O Baile das Loucas” parte desse gesto simples e pesado, a porta que fecha, o portão que separa, e a personagem passa a contar a vida por horários, autorizações e passos vigiados. A partir dali, cada tentativa de existir como pessoa cobra espera no corredor, mais perguntas no consultório e a chance de receber outra dose para ficar quieta.

Lou de Laâge sustenta Eugénie sem buscar santidade pronta. A atriz faz a personagem medir a própria voz, escolher palavras como quem escolhe por onde andar, e respirar curto quando percebe que virou assunto de roda. Quando Eugénie tenta garantir mínimos direitos, um bilhete, uma conversa sem plateia, um trajeto sem escolta, ela troca esse pedido por mais observação e por mais tempo parada, sentada, encarando a parede e o relógio. O caminho não corre para a “superação”; ele insiste no que dá trabalho, no que exige coordenação e paciência, no que consome energia antes mesmo de produzir qualquer mudança.

Portas, chaves e prontuários

A clínica aparece como um lugar onde ciência, prestígio e controle se misturam na rotina. Charcot domina salas e corredores com uma autoridade que vira regra, e isso pesa tanto quanto a tranca do quarto. Há demonstrações e aulas com plateia, mesa de exame, gente anotando, gente olhando, e uma sensação de espetáculo para quem visita, enquanto as internas pagam com remédio que derruba, banho com hora marcada e circulação limitada. Chorar, reclamar ou se calar vira material de prontuário, e o prontuário vira argumento para apertar ainda mais o cerco. No fim do turno, sobra a fila, sobra o barulho da chave, e sobra a certeza de que a palavra “tratamento” pode significar silêncio imposto.

É nesse cenário que Geneviève surge como quem conhece as regras e também os atalhos. No papel de Geneviève, Mélanie Laurent carrega o cansaço de quem abre e fecha portas o dia inteiro, distribui medicação, controla entradas e tenta manter o setor funcionando sem se perder junto. A aproximação com Eugénie nasce de ações pequenas, um copo d’água no momento certo, um curativo feito sem pressa, uma conversa curta quando ninguém está por perto. Cada gesto, porém, exige cálculo, porque a hierarquia observa e cobra, e qualquer gentileza pode virar suspeita. Ao estender a mão, Geneviève arrisca o pouco espaço que conquistou, e passa a medir o que faz, quanto tempo gasta e quem pode testemunhar.

A direção de Mélanie Laurent fica melhor quando evita frase de efeito e prende a câmera ao procedimento. Em vez de resumir o horror em explosões, ela prefere a repetição que engole horas, o vai e volta de corredor, a visita marcada que atrasa, o pedido que precisa ser refeito porque alguém perdeu o papel. Quando a câmera fecha em rostos e mãos, diminui a fuga possível e obriga o espectador a acompanhar o esforço necessário para atravessar um dia comum ali dentro. Ao mesmo tempo, a encenação por vezes parece limpa demais para um ambiente que deveria carregar mais sinais de aperto, de gente demais, de sono quebrado, e essa polidez enfraquece algumas cenas. Ainda assim, o filme se mantém atento ao essencial, quem segura a chave, quem preenche o formulário e quem espera autorização para dar três passos.

Fila, remédio e noite de baile

O roteiro, assinado por Laurent e Christophe Deslandes, organiza a trama por decisões concretas, e isso dá corpo ao drama. Quem pode escrever carta, quem recebe visita, quem consegue falar com um médico sem público, quem ganha tarefa no corredor e quem perde o direito de circular. A história avança quando alguém ousa pedir, alguém ousa negar, e a consequência cai na conta das internas, em forma de sedação, isolamento ou humilhação que consome dias. Em alguns momentos, figuras secundárias ficam presas a uma função previsível, o que reduz a sensação de comunidade real dentro da clínica, feita de gente que empurra macas, limpa, carrega bandeja e obedece. Mesmo assim, o vínculo entre Eugénie e Geneviève segura a narrativa porque nasce de escolhas caras, feitas com pouca margem e muito risco.

O baile anual que dá nome ao filme condensa o pacto social da instituição. Não é festa inocente; é uma noite em que corpos e histórias entram em exposição sob regras de etiqueta. As internas precisam vestir, andar, sorrir e suportar o olhar externo, enquanto a casa médica sustenta uma imagem de ordem para visitantes e superiores. O contraste entre o figurino e a condição das mulheres não traz descanso, traz teste, e qualquer erro pode voltar depois como cobrança silenciosa na rotina do quarto e do corredor. Sem entrar em desfechos, basta notar que a preparação mexe com relações e aumenta o risco para quem já vive com pouca chance de escolha. E quando a noite passa, “O Baile das Loucas” volta ao que ele sabe ferir melhor, a fila recomeça, a chave gira outra vez, e alguém segura um copo d’água com as duas mãos enquanto espera a próxima ordem.

Filme: O Baile das Loucas
Diretor: Mélanie Laurent
Ano: 2021
Gênero: Drama/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★