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Você assistiria a um vídeo que te dá só 7 dias? Este suspense está na Netflix Divulgação / DreamWorks Distribution

Você assistiria a um vídeo que te dá só 7 dias? Este suspense está na Netflix

Rachel Keller é apresentada como alguém acostumada a lidar com tragédia por profissão, mas que, quando decide investigar a morte da sobrinha, troca a distância segura da redação por estrada, recepção de prédio e conversa atravessada. Ainda no começo, a investigação esbarra no tal vídeo e, a partir daí, entra uma regra simples na frente dela, sete dias. O perigo vira agenda, vira lista de tarefas, vira a necessidade de dirigir até onde for preciso e voltar sem ter certeza de que a visita rendeu algo além de poeira no sapato.

“O Chamado” amarra o horror a ações bem práticas. Rachel assiste ao vídeo, toma uma decisão rápida e paga por isso na mesma noite, sem descanso e com a cabeça girando. A história segue como um corre-corre de apuração em que cada pista abre outra frente e cobra coordenação com gente que não quer se comprometer. Em vez de empilhar sustos soltos, o roteiro insiste numa cadeia de escolhas, confiar em alguém, invadir um lugar, insistir numa hipótese, atravessar a cidade quando o corpo já pede cama.

Olheiras na luz da cozinha

Naomi Watts sustenta essa corrida com energia de quem está sempre devendo horas ao próprio dia. A personagem entra em salas frias, encara gente hostil, volta para casa com perguntas novas e ainda tenta proteger o filho do que ela mesma pôs em circulação. A atuação não vende bravura; ela entrega alguém que segue em frente porque parar significaria admitir que não há como consertar o erro. A conta aparece em olheiras, irritação e frases cortadas, e também em pequenos gestos domésticos feitos no automático, como preparar algo rápido, checar um barulho no corredor e continuar com a cabeça presa no que viu.

Em paralelo, o longa encaixa a maternidade como um segundo turno sem folga. O filho não é apenas alguém a ser salvo; ele pede presença, atenção e respostas na hora. A rotina da casa vira mais uma linha na lista de tarefas, e o medo se apoia nisso. Ela precisa manter a criança por perto e, ao mesmo tempo, precisa sair para seguir rastros que só existem longe de casa, com o custo óbvio de deixar bilhete, combinar quem olha, voltar correndo, perder o ônibus da normalidade. Esse conflito não pede discurso; pede logística, quem busca, quem cuida, quem dirige, quem espera, quem fica acordado.

Martin Henderson, como Noah, entra como o adulto que pode dividir o peso, mas também como alguém com limites e perguntas próprias. A relação entre os dois é feita de negociação em tempo real. Ele quer entender por que está sendo puxado para aquilo, e Rachel precisa de ajuda quando ajuda significa mais uma conversa difícil, mais um combinado que pode falhar. O filme cresce quando coloca os dois em movimento, cruzando informações e encarando consequências concretas, uma porta fechada, um endereço errado, uma ida inútil que rouba horas preciosas e devolve só silêncio.

Portas fechadas e endereços errados

A direção de Gore Verbinski prefere construir cenas com espaço e silêncio, usando ambientes que obrigam os personagens a entrar, olhar e mexer em coisas que ninguém queria tocar. Em vez de depender só de choque, ele aposta em enquadramentos que fazem o olhar procurar detalhe e imaginar o que pode estar fora de quadro. O medo nasce do trabalho de campo, abrir gavetas, examinar foto antiga, voltar a um lugar que já deu errado, insistir em alguém que responde pela metade. A encenação mantém o foco no que a protagonista faz com as mãos e com o corpo, e isso prende o terror ao esforço físico de buscar resposta, caminhar mais um corredor, descer mais uma escada, atravessar mais um estacionamento vazio.

O roteiro também acerta ao tratar a investigação como uma sequência de tentativas que nem sempre rendem retorno na hora. Rachel tenta encurtar caminho e encontra desvio; tenta simplificar e se vê obrigada a adicionar etapas. Cada avanço cobra acesso, deslocamento e exposição, e a história não precisa parar para narrar isso em voz alta. Basta acompanhar a personagem chegando tarde, recomeçando cedo, conferindo anotações, repetindo a mesma pergunta para pessoas diferentes, porque uma fonte falhou, porque outra omitiu, porque o caminho mais curto não existe.

Há ainda um detalhe eficiente nesse tipo de suspense, a repetição de tarefa comum até ela virar castigo. Em “O Chamado”, dirigir por horas, esperar retorno de ligação, bater em porta que ninguém abre e insistir em mais uma ida a um lugar isolado deixam de ser “etapas do enredo” e viram agenda rasgada, almoço esquecido e sono adiado. Rachel precisa escolher entre dormir e sair, entre ficar com o filho e perseguir uma pista, entre pedir ajuda e gastar energia tentando tornar crível o que nem ela consegue organizar com calma. Quando o telefone toca de novo, ela olha para a pia, pega as chaves e sai sem terminar o que estava fazendo.

Filme: O Chamado
Diretor: Gore Verbinski
Ano: 2002
Gênero: horror/Mistério
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★