Baseado na história real de Cícero Ferreira Dias, o longa brasileiro de Vicente Amorim “O Caminho das Nuvens” narra a peregrinação de um homem e sua família, da Paraíba até o Rio de Janeiro, de bicicleta. A jornada de mais de 3 mil quilômetros foi adaptada por David França Mendes para as telas, a partir de uma notícia veiculada na imprensa e que foi um símbolo da migração interna brasileira no fim dos anos 1990. No filme, o pai se chama Romão e é interpretado por Wagner Moura, em um de seus primeiros papéis de maior visibilidade no cinema. Casado com Rose (Claudia Abreu), o casal e cinco filhos se locomovem de bicicleta município por município, pedindo ajuda e procurando trabalho. Com estética de realismo social e forte influência documental, o longa-metragem se caracteriza pelo formato de road movie e por uma narrativa que privilegia a evolução emocional e moral de seus personagens, em detrimento de clímax tradicionais ou viradas dramáticas.
O filho mais velho do casal é Antonio (Ravi Lacerda, o mesmo de “Abril Despedaçado”), um adolescente em processo de descoberta da autonomia, do desejo e da própria identidade fora do núcleo familiar. Entre os filhos, é ele quem recebe maior destaque dramático, justamente por atravessar situações-limite: enfrenta perigos reais na estrada, cruza com figuras que deixam marcas em sua formação, experimenta um despertar afetivo ao se encantar por uma jovem artista e termina a jornada transformado, em contraste com os pais, que permanecem presos a uma mesma lógica de sobrevivência. Completam o elenco Felipe Rodrigues como Clévis, Cícera de Lima como Suelena e Manoel Alves Filho como Rodney, que acompanha a mãe nas serenatas improvisadas, embaladas por canções de Roberto Carlos, usadas como meio de subsistência e também como válvula emocional da família.
Romão acredita ter um chamado quase divino. Ele crê que existe um trabalho que paga mil reais e que será suficiente para sustentar dignamente sua família. Ao longo do caminho, no entanto, não encontra ninguém disposto a contratá-lo pelo valor que considera justo, o que reforça sua decisão de seguir até o Rio de Janeiro. Amigos solidários, figuras ambíguas e malandros declarados cruzam seu trajeto, fazendo da viagem uma sucessão de pequenos encontros e frustrações. As crianças passam fome, sofrem agressões físicas e simbólicas e continuam acompanhando os pais na peregrinação, enquanto Romão se agarra ao próprio orgulho como último recurso de identidade, insistindo em ensinar aos filhos que é melhor pedir do que roubar, mesmo quando essa ética cobra um preço alto demais.
Com cenas que transitam entre o drama e momentos pontuais de humor, o longa-metragem teve um desempenho crítico mediano e dividiu opiniões desde seu lançamento. A fotografia de inspiração neorrealista não busca embelezar a jornada, mas acentuar o desgaste físico, a precariedade material e a dureza da estrada, transformando o percurso em um espaço de exaustão contínua. Mesmo a chegada ao Rio de Janeiro evita qualquer glamour turístico: o enquadramento se abre para mostrar a família pequena diante da imensidão urbana, sugerindo que as possibilidades são muitas, mas também impessoais e esmagadoras, em uma realidade completamente distinta daquela que deixaram para trás.
O ponto mais forte do filme é a atuação de Ravi Lacerda, que concentra a maior carga emocional da narrativa e oferece nuances que o roteiro nem sempre alcança. A cena mais icônica permanece sendo aquela em que Rose canta com Rodney “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, momento em que a música suspende a dureza da travessia e cria um raro instante de afeto coletivo. As canções de Roberto Carlos funcionam como suspiros dentro do filme, renovando temporariamente a esperança dos peregrinos e oferecendo pequenas doses de alegria em meio à privação. Ainda assim, apesar do tema potente e do material humano rico, o roteiro opta por uma abordagem plana, deixando de aprofundar conflitos e contradições, o que resulta em personagens muitas vezes esboçados apenas na superfície, sem a complexidade que a própria história real parecia prometer.
★★★★★★★★★★


