“Dele & Dela” acompanha o retorno da jornalista Anna Andrews à cidade onde cresceu para investigar um assassinato que ninguém parece disposto a esclarecer por completo. Interpretada por Tessa Thompson, ela chega com um objetivo simples e direto: apurar fatos verificáveis e publicar uma matéria sólida. O problema surge quando o principal interlocutor do caso é justamente quem controla o fluxo de informações. O detetive Jack Harper, vivido por Jon Bernthal, não fecha portas de maneira ostensiva, mas regula o acesso, decide o ritmo e testa até onde ela está disposta a ir. Entre eles, instala-se uma tensão prática, quase cotidiana, em que cada conversa tem um custo.
Anna tenta avançar usando o que conhece: pedidos formais, entrevistas, circulação pelos mesmos lugares de antes. A cidade, porém, já não a trata como alguém de dentro. Velhos conhecidos ajudam com ressalvas, instituições se protegem, e nada vem sem negociação. William Oldroyd conduz essa dinâmica sem pressa, deixando claro que investigar ali significa aceitar perdas graduais. Cada pequeno avanço cobra silêncio, paciência ou risco, e a personagem de Thompson precisa escolher o que sacrificar para seguir adiante.
Jon Bernthal compõe um detetive que raramente se explica. Ele não é agressivo nem abertamente hostil, mas impõe limites com naturalidade, como alguém habituado a mandar naquele território. Seu personagem administra a investigação e a própria autoridade ao mesmo tempo, sabendo quando ceder e quando endurecer. A relação com Anna não vira um duelo verbal, e sim uma sequência de ajustes: ele autoriza um passo, interdita outro, observa o efeito. O conflito cresce justamente dessa economia de gestos.
Pablo Schreiber como Richard Jones aparece como uma presença que desestabiliza esse equilíbrio, alguém que circula entre versões e amplia a sensação de que há sempre mais de um lado em jogo. Sua atuação acrescenta pressão à investigação, não por grandes reviravoltas, mas por colocar novas dúvidas sobre quem ganha e quem perde quando uma história vem a público. O filme usa esse triângulo com inteligência, sem transformar ninguém em peça óbvia de um quebra-cabeça.
O suspense de “Dele & Dela” não nasce de cenas espetaculares, mas da acumulação de obstáculos concretos. A jornalista precisa proteger fontes, organizar informações contraditórias e decidir o momento certo de publicar. Não há atalhos heroicos. Há trabalho, desgaste e escolhas imperfeitas. Oldroyd filma essas decisões com sobriedade, mantendo o espectador próximo dos personagens e das consequências imediatas de cada passo.
O resultado é um drama criminal seco e envolvente, que confia mais na fricção entre pessoas do que em surpresas fáceis. Tessa Thompson sustenta o filme com uma atuação firme e humana, enquanto Bernthal oferece um contraponto denso e incômodo. Sem explicar demais e sem prometer respostas confortáveis, “Dele & Dela” se mantém fiel à ideia que o move desde o início: toda história tem dois lados, e descobrir qual deles vem à tona sempre cobra um preço.
★★★★★★★★★★


