Um clássico do cinema gótico e expressionista, e uma das atuações mais marcantes de Bette Davis, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este papel, “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” acompanha a história de duas irmãs que iniciaram a carreira ainda no circuito pós-vaudeville e, em momentos diferentes, se tornaram estrelas do cinema clássico. A rivalidade entre elas é antiga, cultivada desde a infância, mas se intensifica quando Blanche (Joan Crawford) alcança o sucesso adulto, enquanto a carreira de Baby Jane (Davis) entra em declínio. Pelo contrato de Blanche com o estúdio, cada filme seu deveria ser acompanhado por uma produção menor estrelada pela irmã. Na prática, esses projetos frequentemente eram engavetados, enquanto Blanche acumulava prestígio, prêmios e reconhecimento.
Décadas depois, as duas sobrevivem exclusivamente do dinheiro ganho por Blanche. Idosas, isoladas e obrigadas a dividir a mesma casa, vivem uma relação de dependência doentia. Blanche está confinada a uma cadeira de rodas após um acidente misterioso envolvendo um carro e sua própria irmã, o que a torna completamente dependente de Jane. Enquanto Jane é infantilizada, instável, cruel e paranoica, Blanche surge fragilizada, submissa e resignada, aceitando com inquietante passividade as imposições e humilhações que sofre diariamente.
Filmado em preto e branco, com sombras duras, contrastes acentuados e enquadramentos que reforçam o isolamento físico e emocional das personagens, o longa constrói em ritmo deliberadamente lento o retrato psicológico de duas mulheres em ruína. A casa se transforma em uma prisão mental, e a decadência das protagonistas espelha a deterioração de um sistema que já não sabe o que fazer com mulheres envelhecidas.
Se nas telas as irmãs são inimigas, fora delas a rivalidade entre Joan Crawford e Bette Davis também era real e atravessou décadas. Um dos episódios mais citados envolve o casamento de Joan com Franchot Tone, em 1935, ator por quem Davis era apaixonada, fato que aprofundou uma antipatia já existente. Havia também um choque de concepções artísticas: Davis se via como atriz rigorosa, obcecada por texto, construção dramática e risco criativo, enquanto enxergava Crawford como uma estrela moldada pelo star system, mais ligada à imagem, à moda e ao marketing do que à arte dramática propriamente dita.
Essa animosidade ganhou contornos públicos na cerimônia do Oscar de 1963. Indicada por “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, Davis viu Joan Crawford, não indicada naquele ano, subir ao palco para receber a estatueta de Melhor Atriz em nome de Anne Bancroft, ausente na premiação. O gesto, permitido pela Academia, foi interpretado por muitos como uma provocação calculada e se tornou um dos episódios mais emblemáticos da história de Hollywood.
Apesar disso, durante as filmagens, ambas mantiveram uma postura profissional. Houve pequenas sabotagens pessoais, ressentimentos silenciosos e disputas de ego, mas não brigas abertas nem colapsos no set. Essa tensão latente acabou funcionando a favor do filme, intensificando as atuações e conferindo às performances uma veracidade quase desconfortável.
“O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” não é apenas um thriller psicológico: é um marco do subgênero psycho-biddy, um comentário ácido sobre fama, envelhecimento e crueldade, sustentado por uma estética expressionista e por atuações que continuam a inquietar o público até hoje.


