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O filme de Agnès Varda, na Mubi, que engana os olhos até o fim: belo e trágico como uma pintura de Monet Divulgação / Parc Film

O filme de Agnès Varda, na Mubi, que engana os olhos até o fim: belo e trágico como uma pintura de Monet

Não se deixe enganar pelas cores vibrantes, pelas cenas ensolaradas e pela família sorridente que ocupa os primeiros minutos da obra mais provocativa de Agnès Varda, lançada em 1964 e conhecida no Brasil como “A Felicidade Tem Duas Faces”. À primeira vista, tudo parece um verão eterno: flores silvestres tomam os bosques, crianças brincam livres e Thérèse colhe buquês como quem cultiva um ideal doméstico. O quadro é de harmonia absoluta, quase artificial, um retrato idealizado da família operária francesa dos anos 1960, embalado por uma sensação de bem-estar constante.

François (Jean-Claude Drouot) é um jovem carpinteiro que conheceu a esposa durante o serviço militar. Casaram-se, tiveram filhos e agora vivem o que ele chama, sem ironia aparente, de uma felicidade plena. Ele trabalha para o tio em obras de construção civil e retorna diariamente para casa, onde Thérèse o espera com a rotina doméstica organizada, os filhos cuidados e uma dedicação que parece inesgotável. Interpretada por Claire Drouot, esposa do ator também fora das telas, Thérèse encarna essa felicidade silenciosa, moldada pelo trabalho invisível e pela constante disponibilidade emocional e física. Para François, a vida parece perfeita, talvez perfeita demais.

Essa estabilidade se desloca quando o trabalho o aproxima de Émilie (Marie-France Boyer), funcionária dos Correios. A relação surge sem culpa ou segredo: desde o início, François fala da esposa, dos filhos e da felicidade que diz viver. Não há promessa de ruptura nem conflito interno declarado. O que ele propõe é simples e perturbador: somar afetos sem abrir mão de nada. Émilie, apaixonada, aceita ocupar esse espaço secundário, ainda que admita o desconforto e o ciúme. François sustenta a ideia de que ama as duas e que não existe motivo para alterar um arranjo que, do ponto de vista dele, funciona.

A rotina em casa segue com Thérèse, embora François inicialmente oculte o caso. Com o passar dos dias, a esposa percebe mudanças sutis no comportamento do marido e o questiona durante um piquenique em família. Ele revela o relacionamento e sugere que ela aceite dividir o marido com outra mulher. Não há explosão dramática. Thérèse consente, ainda que visivelmente entristecida. A vida de François segue praticamente intacta.

Evitando qualquer spoiler que possa comprometer a experiência: Agnès Varda constrói um filme profundamente provocativo sobre a lógica do sistema machista. Os homens tratam as mulheres como extensões descartáveis de sua própria felicidade, enquanto os sentimentos femininos não são plenamente validados. Elas não confrontam, não rompem, apenas aceitam, resignadas, ainda que infelizes com o acordo. Os cortes rápidos, que por vezes deixam o espectador tonto, não são meros artifícios estéticos: simbolizam a fragmentação da felicidade, a supressão do conflito e a recusa em encarar o sofrimento feminino.

Varda trata tudo com uma frieza calculada. Não há espaço para o melodrama, nem tempo para o choque ou o luto. O que acontece de mais perturbador é tratado como banal, quase cotidiano. Essa escolha se alia à estética colorida e luminosa do filme, criando uma ironia cruel diante do que é emocionalmente devastador. “A Felicidade Tem Duas Faces” dividiu opiniões à época de seu lançamento justamente por se recusar a oferecer vingança ou justiça moral. O filme termina deixando uma sensação incômoda de injustiça e revolta, não por falha narrativa, mas por coerência com a realidade que ele se propõe a expor.

Filme: As Duas Faces da Felicidade
Diretor: Agnes Varda
Ano: 1965
Gênero: Drama/Romance/Tragédia
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.