Discover
Se assoprar com fé o amor acende

Se assoprar com fé o amor acende

Tentar eu tentei, mas nunca matei passarinho. Tinha uma péssima pontaria. Certa vez, atirando por atirar, conformado com a incompetência de exterminador mirim, usei o estilingue com forquilha de goiabeira e… Pimba! Não é que acertei o pobre de um periquito? Não estava preparado para o sucesso da caçada. Então, o remorso derramou dentro de mim, celeremente, como se fora um tsunami de ondas venenosas, ao mesmo tempo em que o bichinho despencava entre as folhas até cair inerte aos meus pés descalços.

Havia uma raja de sangue sobre a plumagem verde. Apavorado, catei a avezinha e corri até o meu avô. O velhote estava sentado no centenário banco de madeira maciça que ficava no alpendre da casa onde ele, o pai dele e outros homens antigos tinham nascido. Eu disse vô pelo amor de Deus me ajude eu acho que eu matei esse passarinho. Sem tirar os olhos dos apetrechos com os quais preparava o palheiro, ele instruiu passe um pouco de cuspe e assopre um sopro suave sobre a cabecinha dele pode ser que funcione.

Segurando a inconteste vontade de chorar, passei saliva no ferimento, fechei os olhos e assoprei de leve sobre a cabeça do periquitinho, desejando profundamente que ele recobrasse os sentidos, que revivesse, pois, daquele dia em diante, nunca mais atentaria contra os passarinhos e outros bichos inofensivos da natureza. Pensei que aquela fosse uma causa perdida, até que ele abriu os olhinhos, firmou o pescoço antes desmilinguido e bicou sem dó o fura-bolo. Em seguida, bateu as asas e sumiu na paisagem verde.

Eu disse ui vovô e levei o dedo à boca para estancar o sangue. O velho gargalhou, balançou de um lado para o outro a cabeça branca feito o cume do Kilimanjaro e continuou o ritual de preparação do palheiro. Para completar, disse menino não se apoquente e vá brincar de outra coisa. Fiquei sentado no tamborete de couro matutando sobre o ocorrido, pensando que boa sorte eu tinha tido pelo periquito não ter morrido de pedra minha.

De repente, avistamos um carro que se aproximava velozmente pela estrada de terra. O Monza judiado estacionou em frente à sede da fazenda. Não reconhecemos os ocupantes. O motorista gordo, de cenho suado e barba por fazer, disse bom dia senhor como vai e quis saber se o cavalo baio que pastava modorrento no piquete ali do lado era de propriedade dele. Vovô respondeu sim senhor por quê a pergunta.

O homenzarrão que não tinha modos nem aparência confiável identificou-se como comerciante e perguntou se o cavalo estava disponível para venda. Vovô disse que não estava. O sujeito inquiriu se o animal continuava na lida, tendo em vista que parecia bastante combalido, um pangaré depauperado. Naquela época, eu ainda não sabia o significado de depauperado e combalido. Vovô acendeu o cigarro com a binga, deu uma baforada e respondeu que o cavalo estava aposentado. Se estava aposentado, não tinha por que não passar o bicho nos cobres, insistiu o risonho desconhecido.

Vovô ficou incomodado com a petulância do sujeito e decretou que o cavalo ia permanecer vivo até quando Deus quisesse, pois guardava por ele imensurável gratidão pelos relevantes serviços prestados naquela propriedade. Não ia ser injusto de vender o pobre coitado para um açougue àquela altura da vida. O homem resmungou uma qualquer coisa de má educação, disse passe bem senhor, entrou na sucata feiosa e sumiu na poeira da estrada com os comparsas mal-encarados.

Senti o amor me doendo por dentro, mais uma vez. Pensei quando ficar velho quero ter a atitude e os cabelos brancos do meu vovô. Os anos se passaram. E foram muitos. Tornei-me um adulto de hábitos excessivamente urbanos. Cansado de viver, o velhote morreu de causas naturais aos 93, que nem um pangaré depauperado e combalido. Não aprendi a fumar palheiro. Fiquei calvo e velho antes da hora. Eu perdi os cabelos, mas, as memórias, essas ninguém me tira.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.