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A melhor coisa que você vai assistir nesse fim de semana acaba de chegar à Netflix Divulgação / Netflix

A melhor coisa que você vai assistir nesse fim de semana acaba de chegar à Netflix

Eu nunca tinha ouvido falar de Marcello Hernández até que, na última semana, com o lançamento de seu mais recente stand-up para a Netflix, intitulado “American Boy”, vi minhas redes sociais serem invadidas como um tsunami por trechos do show. Os cortes são excelentes e capturam algumas das melhores piadas que ele apresenta no palco. Confesso que dá quase para assistir ao espetáculo inteiro apenas pelos vídeos que circulam nas redes, tamanha a quantidade de material que já se espalhou por aí. Ainda assim, ver o show completo continua sendo uma experiência muito mais potente.

Também confesso que não sou exatamente uma entusiasta de comédias, pior ainda de stand-up. Meu senso de humor é exigente, e é preciso bastante para me impressionar com piadas que realmente me façam rir. Resumindo: sou chata. Mas Marcello rompe esse muro com facilidade.

Filho de imigrantes latinos, com mãe cubana e pai dominicano, Marcello nasceu em Miami, na Flórida. Formou-se em Empreendedorismo e Comunicação em Ohio e depois se mudou para Nova York para se dedicar à carreira na comédia. Nas redes sociais, começou a ganhar visibilidade com reels de esquetes curtas, até que seu trabalho chamou atenção do Saturday Night Live, programa humorístico tradicional da televisão americana. O SNL chegou a ter alguma visibilidade no Brasil entre os anos 1990 e 2000, mas nunca se sustentou por aqui a longo prazo, e, pessoalmente, eu nunca vi muita graça. Ainda assim, saber que Marcello integra o elenco desde 2022 me faz pensar que ele deve ter levado algum frescor ao programa.

“American Boy” toca direto em uma ferida conhecida de qualquer latino-americano e, talvez por isso, tenha falado tanto comigo. Marcello revisita a infância marcada por uma criação latina e contrasta esse modelo com o padrão norte-americano. Enquanto pais estadunidenses tendem a ser mais permissivos ou passivos diante das rebeldias de crianças e adolescentes, os latinos costumam seguir o caminho oposto. Chineladas simbólicas, discursos morais intermináveis e pequenas humilhações fazem parte desse imaginário educativo. O que, para brancos, pode soar como abuso físico ou moral, para muitos latinos é visto como uma forma rígida, intensa e até amorosa de educar.

Vale deixar claro: não estamos falando de tortura ou agressão. Nada de ajoelhar no milho, comer comida do chão ou apanhar de forma violenta. Isso é crime, e não há qualquer ambiguidade sobre isso.

Marcello constrói humor a partir dos apuros que viveu sendo criado por uma mãe rígida, fala das diferenças culturais entre Ohio e Miami, aborda temas ligados ao universo feminino, como a dificuldade de ser mulher em um mundo dominado por homens emocionalmente frouxos, e chega ao eixo mais atual e político do show: a perseguição aos imigrantes latinos nos Estados Unidos. Ele dá uma dura no racismo usando humor inteligente e atinge em cheio o desconforto branco.

Em determinado momento, diz algo como: “Coloquem uma coisa na cabeça de vocês: latinos gostam de crimes divertidos, como pilotar um avião com um pouco de cocaína. Crimes que viram filmes. Brancos gostam de crimes horripilantes, daqueles que viram documentários”.

Cada linha do texto é eficaz, e Marcello fala com a naturalidade de quem é engraçado sem precisar forçar nada. Suas expressões, entonações e, sobretudo, o timing são impecáveis. “American Boy” aborda temas políticos sem panfletarismo e sem drama excessivo, aplicando uma lição moral contundente, e inteligente, sem soar ofensivo.

Filme: Marcello Hernández: American Boy
Diretor: Nicholaus Goossen
Ano: 2026
Gênero: Comédia
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.