Houve um tempo em que ser mulher era, antes de qualquer outra coisa, assumir-se um mero apêndice, primeiro dos pais ou dos irmãos, depois do marido ou da Igreja. Sempre existiram aquelas que davam a cara à tapa (e isso muitas vezes não era só figura de linguagem) e fugiam com o circo (idem), galvanizando um movimento que não arrefece. As vozes que se levantavam em defesa da ideia — absurda até outro dia e ainda hoje execrada em diversas sociedades ao redor do mundo — de que mulheres podem, e mesmo devem, igualar-se aos homens, mantendo ou não suas idiossincrasias femininas, geravam muito mais calor que luz, por maior que seja a cordura e a obviedade do argumento. Em sua estreia na direção de longas, Molly Manning Walker compõe em “How to Have Sex” um retrato preciso da angústia da mulher quanto aos direitos a que parece condenada a nunca usufruir por completo, expondo também os perigos da liberdade sem prudência.
Crescer é uma delícia…
Tara viaja para Creta com as melhores amigas, Em e Skye, esperando surpresas. Essa é a primeira das muitas “experiências adultas” que pretende ter nesse êxodo idílico, malgrado ainda seja pouco mais que uma garota e não tenha sequer acabado a escola. As outras são tomar uma épica carraspana e, claro, ir para a cama com o maior número de parceiros que conseguir, e uma coisa leva à outra. Em seu roteiro, Walker dedica bastante tempo a decompor as personalidades de cada uma, ressaltando nuanças que ficam mais evidentes minuto a minuto. Tara é a típica boa moça, mas sem preconceitos, compreensiva, disposta a ter contato com gente de outros universos. Em e Skye tomam a frente da tarefa, elas mesmas interessadas em aproveitar todas as oportunidades e fazer todas as loucuras que puderem. Elas vão a um inferninho onde se embriagam, voltam para o hotel depois de umas paradas para urinar e no dia seguinte enturmam-se com os hóspedes do quarto ao lado. E vão fundo.
…mas dói
Uma festa na piscina junta Tara, Em e Skye a Badger, Paddy e Paige, três amigos bem mais versados em farras, bebedeiras e orgias, tudo quanto as meninas procuravam, e nesse ponto, Walker vai fazendo com que o filme lembre uma interminável rave, avançando pela noite até o amanhecer, amparada pela fotografia de Nicolas Canniccioni, pródiga em rosas e azuis néon, uma constante referência ao título, até que esse colorido esmaece e a diretora aproxima-se de seu intuito. A certa altura, enquanto as personagens de Enva Lewis e Lara Peake conhecem melhor Badger e Paige, Tara e Paddy afastam-se, entram no mar e ele tira a roupa dela, sob o pretexto de não deixá-la pegar um resfriado. O que vem a seguir é óbvio, mas Walker demonstra uma assombrosa habilidade em manipular as certezas do público, chegando a instigar alguma dúvida acerca do que pode ter acontecido de fato. Vencedora do BAFTA de Astro em Ascensão por “How to Have Sex”, Mia McKenna-Bruce concentra boa parte da potência silenciosa da trama, que prima por jamais dizer tudo. E o desejo também cala.
★★★★★★★★★★


