“Como Se Fosse a Primeira Vez” acompanha Henry Roth (Adam Sandler), um veterinário marinho que vive no Havaí e faz de tudo para evitar qualquer tipo de compromisso duradouro. Ele gosta da própria rotina, do trabalho com animais e de relações sem consequências. Tudo muda quando conhece Lucy Whitmore (Drew Barrymore), uma jovem carismática, doce e curiosamente fechada em si mesma. O interesse entre os dois nasce rápido, leve, quase casual, até Henry perceber que existe um limite invisível naquela relação.
Lucy sofre de uma condição que a impede de formar novas memórias. Todos os dias, ela acorda acreditando estar vivendo o mesmo momento do passado. A família, tentando protegê-la, cria uma bolha cuidadosamente controlada, onde nada pode mudar demais. Quando Henry entende o que está acontecendo, o romance deixa de ser apenas um flerte e passa a exigir esforço real, paciência e escolhas conscientes. Não existe espaço para improviso fácil quando tudo pode ser esquecido no dia seguinte.
Adam Sandler funciona muito bem nesse registro mais contido. Henry é engraçado, mas também inseguro, insistente e, às vezes, claramente perdido. O humor surge menos das piadas prontas e mais da situação absurda de precisar conquistar a mesma pessoa repetidas vezes. Drew Barrymore, por sua vez, dá humanidade a Lucy sem transformá-la em um recurso dramático. Ela é afetuosa, espirituosa e nunca reduzida à condição que carrega, o que ajuda o público a se conectar com a personagem de forma genuína.
A dinâmica com a família de Lucy adiciona tensão prática à história. O pai e o irmão funcionam como guardiões daquela rotina frágil, desconfiando das intenções de Henry e impondo limites claros. Isso impede que o filme caia numa fantasia romântica simples, porque o relacionamento nunca acontece no vazio. Há sempre alguém observando, interrompendo ou colocando freios quando necessário.
O tom da comédia é leve, mas não bobo. As tentativas de Henry de se aproximar de Lucy rendem momentos engraçados justamente porque não funcionam como ele espera. Cada dia é uma nova tentativa, e o filme encontra graça nessa repetição, sem transformar isso em desgaste. Rob Schneider aparece como apoio cômico, ampliando o humor sem roubar o foco da relação central.
O mérito do filme está em não tratar o amor como algo automático. Aqui, gostar de alguém dá trabalho. Exige atenção, constância e disposição para recomeçar sem garantias. Sem entrar em resoluções fáceis, a história se sustenta nessa ideia simples: amar alguém que não lembra de você é um desafio diário, e nem todo mundo estaria disposto a encarar isso.
Mesmo quase duas décadas depois, “Como Se Fosse a Primeira Vez” continua funcionando porque equilibra romance, humor e uma melancolia discreta. É um filme que parece leve, mas carrega um peso emocional honesto, sustentado pela química entre Adam Sandler e Drew Barrymore e por personagens que soam humanos, falhos e reconhecíveis.
★★★★★★★★★★




