Concorrente direto de “O Agente Secreto” nas principais premiações do cinema mundial, “Valor Sentimental” compartilha com o filme brasileiro um mesmo eixo temático: a memória. No longa norueguês de Joachim Trier, a metalinguagem não surge como artifício formal, mas como a principal via de acesso a uma história atravessada por trauma geracional, remorso e pela passagem do tempo. Stellan Skarsgård interpreta Gustav Borg, um cineasta consagrado que está há mais de uma década sem dirigir. Quando a ex-mulher morre, ele retorna a Oslo para reencontrar as duas filhas e decidir o destino da antiga casa da família Borg, um imóvel passado de geração em geração, carregado de história e silêncios.
A casa aparece como personagem: observa, testemunha e preserva as marcas emocionais dessa família. Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) são as filhas que Gustav abandonou décadas antes, após a separação. Ele se mudou para a Suécia e, desde então, manteve apenas contatos esporádicos, incapaz de exercer qualquer presença paterna consistente. A infância das duas foi marcada não apenas pela ausência do pai, mas também pela indisponibilidade emocional da mãe. Ainda assim, não é apenas a morte da ex-mulher que traz Gustav de volta: ele pretende filmar um novo projeto, aquele que considera o melhor de sua carreira.
Gustav convida Nora, atriz profissionalmente bem-sucedida, mas emocionalmente fragilizada, solitária e acometida por crises de pânico, para protagonizar o filme. O convite é recebido com um “não” seco e definitivo. O ressentimento é antigo e profundo. Gustav aceita a recusa e escala Rachel Kemp (Elle Fanning) como substituta. Durante o desenvolvimento do projeto, Rachel é orientada a alterar sua aparência para se aproximar fisicamente de Nora. O papel, afinal, é sobre uma mulher cuja trajetória guarda paralelos diretos com a da mãe de Gustav. Em busca de verdade emocional, Rachel passa a investigar a vida dessa mulher que serve de inspiração ao roteiro.
As filmagens acontecem justamente na casa da família, espaço onde gerações de Borg foram marcadas por experiências dolorosas. A mãe de Gustav, Karim Borg, foi presa por propaganda antinazista quando ele tinha apenas sete anos. Detida por dois anos, foi submetida a torturas físicas e psicológicas constantes. Ao retornar, já não era a mesma pessoa. Pouco tempo depois, cometeu suicídio, deixando em Gustav um trauma profundo e uma incapacidade persistente de compreender e expressar afeto.
Diante das filhas ainda profundamente feridas, sobretudo Nora, Gustav não pede desculpas, não tenta justificar suas ausências nem busca redenção emocional. Ele aceita que o passado é irreparável. Nora, por sua vez, permanece presa a uma espiral de rancor e desconfiança, incapaz de permitir o retorno do pai à sua vida por medo de reviver o abandono. O filme mostra como as duas irmãs reagiram de maneiras distintas ao trauma: Agnes, amparada emocionalmente pela irmã mais velha, conseguiu construir alguma estabilidade; Nora, ao contrário, cresceu acreditando que o amor é provisório, que a presença é instável e que vínculos estão sempre à beira do abandono.
“Valor Sentimental” acompanha a jornada dolorosa dessa família em tentativa de reconstrução após anos de afastamento, mágoas acumuladas e silêncios não elaborados. Trier aborda tudo isso sem melodrama ou sentimentalismo. As emoções são contidas, os traumas surgem por sugestão, nunca por exposição direta. Um diálogo no fim do filme entre as duas irmãs revisa toda a narrativa, expandindo o olhar do espectador e obrigando-o a reconsiderar suas próprias interpretações. É uma revelação poderosa, densa e profundamente perturbadora.
A metalinguagem de Trier não celebra o cinema. O filme sobre fazer um filme não é nostálgico nem festivo. É, na verdade, uma tentativa de reparação tardia, um gesto que busca compensar uma relação que nunca pôde ser plenamente vivida. Em “Valor Sentimental”, o cinema não cura o trauma, mas lembra que compreender não é o mesmo que reparar, e que o abandono é a pior dor de um filho.
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