O cineasta alemão Douglas Sirk é um símbolo do romance e do melodrama do cinema hollywoodiano clássico. Mas muito mais do que realizar filmes para um público feminino, Sirk provocava o espectador, rompendo padrões e estereótipos masculinos socialmente aceitos. “Palavras ao Vento” é um exemplo cristalino dessa missão cultural encabeçada pelo diretor. Baseado no romance de Robert Wilder, inspirado, por sua vez, na tragédia real envolvendo a família Reynolds Tobacco, o longa brinca com a linearidade para construir uma narrativa que vai muito além do romance. É uma tragédia de contornos quase gregos, atravessada por paixão, remorso, ressentimento e inveja.
Robert Stack interpreta Kyle Hadley, herdeiro de uma poderosa família da indústria petrolífera no Texas, cujo passado é marcado por alcoolismo, farras e irresponsabilidade. Ao longo do filme, ele tenta reconstruir sua imagem diante do pai, sobretudo após se casar com Lucy (Lauren Bacall), secretária da empresa dos Hadley. Lucy não vem de uma família rica ou aristocrática, e o casamento poderia soar controverso dentro daquele círculo social, não fosse a recomendação de Mitch (Rock Hudson), amigo de infância de Kyle e homem de absoluta confiança do patriarca Jasper Hadley (Robert Keith). Jasper vê em Mitch tudo aquilo que seu filho jamais conseguiu ser: sério, disciplinado, inteligente e confiável.
Mitch, no entanto, vive um dilema que é exposto ao público, mas jamais verbalizado ao casal: ele é apaixonado por Lucy, sentimento que reprime por lealdade a Kyle. Seu aval basta para que Jasper confie na nora e acredite que ela seja uma companheira adequada para o filho. Em paralelo, a irmã de Kyle, Marylee (Dorothy Malone), surge como a figura mais abertamente transgressora do núcleo familiar. Ela rompe com os valores tradicionais e com as expectativas paternas, envolve-se com diversos homens e leva uma vida considerada “promíscua” para os padrões da época. Seu comportamento errático é fonte constante de decepção para Jasper e funciona, no fundo, como uma forma ressentida de rebeldia, tanto contra o pai quanto contra Mitch, por quem nutre um desejo não correspondido.
Sirk ousa fazer algo incomum para o cinema de estúdio dos anos 1950. Não há heróis ou vilões claros, mas indivíduos falhos tentando se sustentar emocionalmente. Mitch e Kyle possuem personalidades opostas, porém ambos são retratados como homens sensíveis, tomados por remorso, ciúme, insegurança e descontrole emocional. Eles choram, imploram, falham e colapsam. O enredo culmina no colapso emocional de Kyle, momento que precisa da intervenção de Mitch. As atitudes condenáveis de Kyle não são defendidas por Sirk, mas enquadradas como sintomas de uma falência emocional e identitária, incluindo a agressão contra Lucy e o ciúme obsessivo em relação à proximidade entre ela e Mitch, ainda que Lucy jamais tenha correspondido a esse afeto silencioso.
O verdadeiro ponto de ruptura do filme está no emocional masculino, que sucumbe diante das perdas, das frustrações e das expectativas impostas. O roteiro sugere de forma inequívoca que Kyle é infértil, um tema tratado apenas nas entrelinhas, como exigia o Código Hays, e essa impossibilidade de gerar um herdeiro aprofunda seus conflitos de autoestima. Somam-se a isso a sensação de inferioridade em relação a Mitch, a percepção de ter sido sempre uma decepção para o pai e a culpa internalizada por não corresponder ao papel de sucessor. A morte de alguém querido funciona como um gatilho definitivo, intensificando essas fraturas emocionais e levando Kyle a descarregar sua frustração e desespero sobre Lucy.
Essa intensidade emocional e essa ruptura com o ideal de masculinidade controlada, discreta, viril e impenetrável fazem de “Palavras ao Vento” uma obra provocadora até hoje. Nas mãos de Sirk, o melodrama expõe uma verdade desconfortável: homens também sentem, falham e se descontrolam, e o preço dessa repressão pode ser devastador.
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