Em “Era Uma Vez em Hollywood”, dirigido por Quentin Tarantino, Leonardo DiCaprio vive Rick Dalton, um ator de TV que percebe que sua relevância está diminuindo, enquanto Brad Pitt interpreta Cliff Booth, o dublê e braço direito que mantém sua rotina funcionando, e Margot Robbie surge como Sharon Tate, figura em ascensão que circula com naturalidade pela indústria; o conflito central acompanha a tentativa de Rick de continuar empregado num mercado que já começa a olhar para outros rostos.
Rick Dalton passa os dias indo a testes, aceitando participações menores e tentando convencer produtores de que ainda entrega resultado. Ele quer recuperar espaço, mas encontra um ambiente impaciente, com prazos curtos e pouca tolerância a erros. Cada papel conquistado garante apenas um fôlego temporário, nunca estabilidade. O efeito é claro: Rick continua trabalhando, mas sempre sob a ameaça de ser descartado no próximo projeto.
Cliff Booth funciona como amortecedor dessa instabilidade. Ele dirige, espera, organiza horários, observa os bastidores e resolve problemas práticos antes que virem crises. Brad Pitt constrói Cliff como alguém silencioso e eficiente, que entende melhor o funcionamento real da cidade do que o próprio ator que protege. O obstáculo de Cliff não é falta de competência, mas a posição informal que ocupa. Ainda assim, sua presença garante acesso, reduz riscos e mantém Rick em movimento.
Hollywood aparece como um grande espaço de circulação. Sets, trailers, ruas e restaurantes viram extensões do trabalho. Rick entra e sai desses ambientes tentando preservar autoridade, enquanto Cliff lê o clima e decide quando avançar ou recuar. Tarantino observa esses deslocamentos com calma, alongando a espera e deixando claro como pequenas decisões têm efeitos imediatos sobre reputação e oportunidades.
Sharon Tate ocupa outro lugar nessa engrenagem. Vivida por Margot Robbie, ela transita pela cidade com leveza, indo a compromissos profissionais e culturais sem a pressão constante de provar algo. Sua presença funciona como contraste direto com Rick: enquanto ele luta para não desaparecer, ela amplia naturalmente seu espaço. O efeito é menos narrativo e mais prático, ela tem acesso contínuo, ele precisa negociá-lo a cada dia.
A comédia surge das tentativas concretas de Rick de controlar situações que fogem do seu domínio. Ele se cobra demais, erra detalhes, tenta compensar e acaba expondo inseguranças. O humor não vem de esquetes cômicos, mas do desconforto reconhecível de quem percebe que o mundo profissional mudou. Cada falha tem consequência imediata, perda momentânea de autoridade, tensão no set, necessidade de recomeçar.
Há também um olhar afetuoso sobre a parceria entre Rick e Cliff. Mesmo quando a aposta não se paga, existe confiança mútua na rotina compartilhada. Rick insiste porque precisa continuar visível; Cliff sustenta porque sabe que parar é perder posição. Essa dinâmica mantém o filme em movimento constante, sempre empurrando os personagens para o próximo compromisso.
Sem recorrer a explicações ou discursos, “Era Uma Vez em Hollywood” acompanha ações pequenas e seus efeitos diretos. Rick aceita seguir tentando, Cliff mantém a engrenagem funcionando, Sharon segue em circulação. Nada se resolve, mas o trabalho continua, com novos prazos, novos acessos e a sensação clara de que, em Hollywood, sobreviver já é uma vitória diária.
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