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Filmado em 5 noites na casa do diretor: o thriller sci-fi do Prime Video que faz a realidade escorregar Oscilloscope Laboratories / Glowstick

Filmado em 5 noites na casa do diretor: o thriller sci-fi do Prime Video que faz a realidade escorregar

Um grupo de amigos se reúne para um jantar e, no meio da noite, “Coerência”, de James Ward Byrkit, desloca a situação para um terreno instável quando um apagão coincide com a passagem de um cometa e levanta a suspeita de realidades paralelas ao alcance de poucos passos. O conflito central é a tentativa de entender com quem estão lidando e em qual versão da noite ainda podem confiar sem se colocar em perigo. Para manter precisão, certos aspectos de encenação e de trajetória aparecem aqui em termos gerais, sem extrapolar o que está estabelecido.

A partir dessa quebra, as escolhas ficam práticas. Eles tentam preservar o encontro e sustentar a normalidade, mas cada conversa passa a carregar um teste embutido, porque detalhes mínimos deixam de bater e o que parecia consenso vira dúvida compartilhada. O obstáculo, então, não é falta de explicação científica, e sim o fato de que qualquer explicação depende de pessoas que já não sabem se estão falando com quem acreditam. A consequência se mede no ambiente, a confiança encolhe, os laços se reorganizam em pequenos blocos, e a sala assume a tensão de um espaço onde informação vale mais do que gentileza.

Amizade sob pressão

As reações do grupo empurram o suspense para dentro das relações. Alguém insiste em seguir pelo instinto e agir logo, outro prefere reunir sinais antes de se mover, e a discordância muda a hierarquia do jantar, já que quem conduz a iniciativa ganha poder momentâneo e quem hesita vira alvo de suspeita. O filme trabalha esse deslocamento com uma crueldade discreta, uma frase interrompida pesa, um olhar longo demais muda o clima, um comentário aparentemente banal vira indício, e os amigos começam a tratar memórias comuns como material incerto, como se a intimidade já não garantisse reconhecimento.

Regras que se desfazem

A ficção científica entra como problema de convivência, não como vitrine de explicação. Em vez de apresentar um manual, o filme coloca os personagens diante de decisões que exigem critério sem oferecer critério, e isso dá à história um desconforto particular, porque a cada tentativa de organizar o que está acontecendo surge uma nova variável e, junto com ela, um novo risco de escolher a palavra errada, confiar no rosto errado, seguir a hipótese errada, e ainda assim continuar agindo, já que ficar parado também vira uma escolha com custo.

Esse desenho evita a sensação de “quebra de realidade” como efeito decorativo. O espaço doméstico permanece simples, e justamente por isso o estranhamento pega com mais força. O que muda é a leitura dos gestos, um comentário ganha peso de prova, uma gentileza pode soar como armadilha, um silêncio pode parecer estratégia. A direção sustenta o colapso com economia e deixa o espectador acompanhar o esforço de gente comum tentando manter a própria versão coerente de si mesmo enquanto o grupo inteiro se fragmenta em interpretações concorrentes.

Thriller em gestos concretos

Quando o perigo se torna plausível, eles trancam portas, vigiam movimentos, escondem informações e testam versões. O tempo encurta e o acesso ao que está fora da casa passa a valer como recurso escasso. A cada tentativa de checagem, alguém perde margem de manobra.

Sem revelar a resolução, o filme se interessa mais pelo preço do ajuste do que pelo brilho do conceito. A pergunta que sobra é o que alguém faz quando a melhor saída parece depender de ocupar um lugar que talvez não seja o seu, e como se carrega essa decisão depois, com pessoas que voltam a sorrir por hábito enquanto medem o outro por sobrevivência. No fim da noite, o impulso de controlar a situação vira ação imediata, e alguém avança em direção ao corredor.

Filme: Coerência
Diretor: James Ward Byrkit
Ano: 2013
Gênero: Ficção Científica/Mistério/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★