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Sem espíritos, sem possessão: o suspense de terror de 2025 no Prime Video que volta ao medo instintivo Divulgação / Universal Pictures

Sem espíritos, sem possessão: o suspense de terror de 2025 no Prime Video que volta ao medo instintivo

Leigh Whannell pode ainda não ter reinventado o terror, mas vem chegando perto. O diretor tem feito do gênero não só um manancial de boas intervenções estéticas, mas também uma releitura do estranhamento da vida, presente com mais clareza nesses tempos mortos. Observa-se esse seu anseio como o roteirista de “Sobrenatural: A Última Chave” (2018), levado à tela por Adam Robitel, e o corroteirista, junto com o diretor Darren Lynn Bousman, de “Jogos Mortais 2” (2005), trabalhos em que faz questão de a todo momento lançar ao rosto do espectador inseguranças quanto ao que é ou não normal e por quê. Em “Lobisomem”, Whannell manifesta uma vontade de aprofundar-se em assuntos espinhosos mirando a lenda sobre a fera por trás do homem, popularizada na Europa entre os séculos 15 e 17. Ele comete enganos, porém seus acertos são matadores.

O homem como o lobo do homem

A vida é uma sucessão de momentos exasperantemente ordinários, entremeados aqui e ali por lances maravilhosos e horríveis em igual proporção, mas quase sempre só conseguimos nos fixar nestes, nos horríveis, nos desastrosos, nos trágicos. A beleza está em muito mais do que pode captar nossa humana miopia, e, por essa razão, escapa-nos esse sutilíssimo movimento do existir, fenômeno que só ocorre se deixamos, ainda que sem querer. Ninguém pode controlar nada, tanto menos as reviravoltas do destino, caprichoso, traiçoeiro, e é por aí que o roteiro do diretor e sua esposa, Corbett Tuck, se movimenta, jogando luz sobre um homem solitário e seu filho, longe de tudo e de todos. Misturando drama de família e terror, Whannell abre seu filme com um longo flashback durante o qual Grady Lovell anda pela floresta do Oregon, no noroeste dos Estados Unidos, com Blake, um garoto sensível, um pouco amedrontado, que percebe que existe qualquer coisa de excêntrico no comportamento do pai. Lidando bem com o relógio, o diretor encaminha a história para um Blake já calejado, trinta anos depois, também ele chefe de família, num casamento desditoso com Charlotte e pai de Ginger. Whannell vai brincando com os vários estereótipos acerca da paternidade e da maternidade, em parte submetidos a um questionamento rigoroso no primeiro ato, e a performance de Sam Jaeger e Zac Chandler é fundamental nisso. Quando fica sabendo que Grady morreu e deixou para ele a cabana no coração da mata, Blake, agora um escritor ainda obscuro, volta lá com a esposa e a filha. Foi o seu erro.

Clichês inventivos

Whannell vale-se dos típicos recursos do gênero a fim de segurar a audiência, e a fotografia de Stefan Duscio alterna de tons de verde-musgo para um breu que exaspera, sobretudo depois que Blake depara-se com a criatura nefasta que habita o bosque e transforma-se no personagem-título. Observa-se uma certa irregularidade narrativa justamente no momento de escalada da tensão; contudo, a afinidade entre Christopher Abbott, Julia Garner e Matilda Firth encarrega-se de manter o andamento da trama sem grandes prejuízos, embora o desfecho não tenha nada de novo. Ainda assim, permanece forte a mensagem da inadequação de Blake, que procura desesperadamente pela salvação e não encontrá-la-á, nem no meio de quem mais ama. Só lhe resta abdicar de sua falha humanidade.

Filme: Lobisomem
Diretor: Leigh Whannell
Ano: 2025
Gênero: Fantasia/Terror
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.