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Extremamente atual: Billy Wilder faz uma radiografia do poder masculino em clássico vencedor de 5 Oscars, no Prime Video Divulgação / The Mirisch Corporation

Extremamente atual: Billy Wilder faz uma radiografia do poder masculino em clássico vencedor de 5 Oscars, no Prime Video

Poucos filmes se mantêm atuais como “Se Meu Apartamento Falasse”. Provavelmente por isso é um clássico e concorreu a 10 estatuetas do Oscar, levando para casa cinco delas: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Montagem. Billy Wilder já foi premiado duas vezes com o Oscar de Melhor Direção e é frequentemente descrito como um arquiteto social do cinema: um autor que ditou comportamentos, expôs estruturas morais e revelou as contradições da vida moderna em suas obras. É um diretor de assinatura clara, cuja filmografia ressoa até hoje e segue inspirando grandes cineastas contemporâneos, como Martin Scorsese.

“Se Meu Apartamento Falasse” gira em torno de C.C. Baxter (Jack Lemmon), um funcionário de uma companhia de seguros em busca de crescimento profissional e que mora sozinho em um charmoso apartamento no Upper West Side de Manhattan. Ele se acostumou a emprestar o imóvel para que seus superiores levem amantes em troca de elogios, favorecimento profissional e promoções. A situação, no entanto, torna-se cada vez mais insustentável: a agenda de reservas do apartamento está sempre lotada, e Baxter mal consegue usufruir do próprio lar e do próprio descanso. Ainda assim, pressionado pelos chefes e seduzido pela promessa de ascensão, ele continua cedendo.

Sua progressão na empresa acontece e, ao longo do caminho, ele se apaixona pela delicada Fran Kubelik (Shirley MacLaine), uma operadora de elevador que mantém um caso com o chefe da companhia, o senhor Sheldrake, um homem rico, poderoso e casado. Baxter desconhece essa relação até perceber que Fran carrega um espelho que ele havia encontrado certa vez em seu apartamento e devolvido a Sheldrake. Fran está apaixonada pelo amante e enxerga Baxter apenas como um amigo. A descoberta de que ela é apenas mais uma entre várias mulheres envolvidas em casos extraconjugais com Sheldrake no escritório conduz a um acontecimento extremo, que leva Baxter a questionar a estrutura da qual ele próprio é engrenagem.

O longa-metragem observa as relações modernas e aparentemente casuais ao mesmo tempo em que denuncia, de forma bem-humorada e discreta, o machismo estrutural que organiza aquele mundo: sem discursos panfletários. As mulheres ocupam posições subalternas, privadas de escolhas reais, enquanto os homens concentram poder e determinam quando, como e com quem desejam se relacionar. Elas são tratadas como mercadorias, objetificadas e emocionalmente subestimadas. Fran, por exemplo, trabalha operando um elevador, metáfora clara de alguém que não escolhe onde quer estar, mas é obrigada a transitar entre andares e hierarquias que servem apenas aos outros. Baxter integra um pacto silencioso de lealdade masculina: homens que viabilizam encontros extraconjugais, escondem segredos uns dos outros, se acobertam, normalizam abusos e se recompensam por isso: uma fraternidade misógina, eficiente e moralmente corrosiva. Quando algo dá errado, a culpa recai invariavelmente sobre as mulheres.

Com roteiro assinado por Billy Wilder em colaboração com I. A. L. Diamond, “Se Meu Apartamento Falasse” tem um protagonista que atua ao lado dos vilões, os homens infiéis, revelando que o mal nem sempre se manifesta de forma monstruosa. Ele pode surgir de figuras comuns, bem vestidas, carismáticas e socialmente respeitáveis. É uma estrutura maliciosa normalizada, assustadoramente familiar, recorrente em ambientes de trabalho e em dinâmicas sociais reais. O desempenho profissional de Baxter não é recompensado por mérito, inteligência ou esforço, mas por cumplicidade, obediência e conveniência, expondo a lógica burocrática e moralmente falida do mundo corporativo. O “herói” só muda quando algo extremo acontece, despertando culpa e o desejo tardio de romper com o sistema.

Com atuações carismáticas e profundamente humanas de Jack Lemmon e Shirley MacLaine, o filme ainda merecendo ser visto, estudado, pensado e discutido. Wilder, mesmo após sua morte, continua dialogando com o mundo por meio de sua obra, provocando, tensionando e instigando o espectador a reconhecer estruturas que, apesar do tempo, insistem em ficar.

Filme: Se Meu Apartamento Falasse
Diretor: Billy Wilder
Ano: 1960
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.