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A dura vida de um esquerdopata

A dura vida de um esquerdopata

Estava lendo “A Dura Vida de um Esquerdopata”, de Alfred Winchester II, um ex-fuzileiro escroque que gerenciava o clube de tiro do condado de Conecte-o-cu, quando escutei a buzina de um carro. Não supunha que os CAC liam livros, muitos menos, que os escrevessem. Pareciam mais idiotas do que a média. Enfim, pagando-se bem, publicava-se de um tudo. Eis a grande miséria editorial desse mundo cão. Eu detestava quando alguém buzinava na frente do motorhome. Era coisa de gente folgada. Olhei pela fresta da persiana e percebi que era a camionete do Ângela, um amigo folgado dos tempos da brilhantina que plantava bananas em Orifícios do Sul e mentiras nas redes sociais.

Havia perdido uma aposta para o Ângela. Apostei que o doidivanas do presidente não invadiria a bosta da Venezuela e acabei me lascando. Agora, de acordo com o combinado, eu seria obrigado não apenas a suportar a sua desagradável companhia até o ginásio de esportes — vale-tudo era esporte? — onde rolava uma competição de MMA, como também a pagar as entradas e supri-lo de cerveja a gosto. Desde os tempos de high school, quando eu mais apanhava do que batia, nunca mais tinha presenciado uma luta entre homens. Achava uma selvageria surrar um indivíduo até ele ficar desacordado.

Estávamos eu e o Ângela dentro de um ginásio lotado, mordiscando asinhas-de-cobra e bebericando cervejas-de-milho. Fui forçado a morrer numa grana pesada ao arrematar os ingressos mais caros que garantiam assentos próximos ao octógono. Dava para sentir o cheiro de sovaco e de sangue dos caras. E por falar nisso, depois do terceiro duelo da noite, a lona já estava daquele jeito, toda besuntada de cuspe, perdigotos, lágrimas e, claro, sangue. Tanto assim que a ring girl, uma daquelas teteias aveludadas que empunhavam cartazes para o alto, com as axilas formidáveis e os artelhos tesudos, escorregou num bolsão de coágulos proveniente dalgum supercílio aberto, estatelando-se no tablado. Pimba! O tombo foi feio. Era uma linda mulher.

Como era de se esperar, o público apupou a coitadinha que parecia esculpida pelo próprio Deus num raro momento de ócio celestial. Posicionada de quatro no ringue, como se fosse a primeira-dama a catar miolos do cônjuge sobre o capô da limusine, exibindo um traseiro possivelmente talhado pelos formões hipocráticos dalgum esculápio de dondocas, a moçoila estava desnorteada. Seria o efeito colateral dalguma caneta emagrecedora? Estávamos a dez palmos dela, se muito. Ângela ficou exaltado, ensandecido mesmo com o espetáculo e se dependurou como um fanático extremista na tela que separava o público dos profissionais, esbravejando impropérios, descalabros e grosserias que deixariam um mito messiânico constrangido feito um corno, só para se ter ideia do tamanho da esculhambação. Pior do que aquilo só rezar para pneu de trator.

Os paramédicos fizeram uma força tarefa para socorrer a minha musa, a voluptuosa garota do ringue que parecia ter se machucado para valer. A interrupção das lutas deixou a plateia impaciente, indócil, fazendo as vaias se avolumarem. Ângela perguntou por que não retiravam logo aquele pedaço-de-mau-caminho numa padiola e mandavam entregar na sua casa. Na casa dele, obviamente, como se não fosse casado o filho da puta. O clima nas arquibancadas esquentava, tornando-se hostil a cada segundo, quando a ring girl começou a sacudir o corpanzil em abalos musculares, como se fora uma galinha caipira com o pescoço destroncado a agonizar no terreiro da fazendinha. Senti uma amargura indisfarçável. Enquanto saltitava sobre a lona escarlate, um sujeito segurava a cabeça dela entre as mãos para evitar um dano maior ao cabelo.

De repente, o clima de pastelão: um desconjurado atirou um gato vivo dentro do octógono. A maioria dos gatos fugiria numa situação como aquela, mas, não um gato raquítico de rua que não comia há dias. Dava para tocar xilofone nas costelas do coitadinho. O bichano, que já tinha desperdiçado seis vidas acreditando em seres humanos, equilibrou-se sobre as quatro patas, averiguou a situação espiando com olho que ainda não tinha cegado. Então, confiante e faminto, começou a lamber celeremente a ignóbil sangria. A cena bizarra foi interrompida ao meio pelo chute de um zé-ruela da comissão organizadora que arremessou o bichano feito um trapo para dentro de um fosso onde se escondiam pessoas desiludidas.

A turba vibrou como num gol de placa. Os implacáveis recursos da para-medicina fizeram a garota do ringue parar de convulsionar e, finalmente, retiraram-na numa padiola para que os duelos fossem retomados. Há horas embriagado, o Ângela comentou “Ah… Isso aí lá em casa…”. Um sujeito ao lado desfraldou a bandeira americana e eu senti raiva, muita raiva mesmo, pelo presidente ter invadido a pobre da Venezuela ao invés da porra Coréia do Norte. Isso faria de mim, pelo menos por uma noite, o namorado de Lucy, a garota do ringue mais bonita do condado.    

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.