A história parte de um impulso que parece administrável, como se bastasse pagar a conta e seguir adiante. Em “Um Amor a Cada Esquina”, Peter Bogdanovich dirige Owen Wilson, Imogen Poots e Kathryn Hahn numa comédia romântica em que um diretor da Broadway tenta manter sob controle o rastro de uma noite com uma acompanhante, até ela surgir de novo no seu círculo profissional e reduzir a distância entre vida privada e palco.
O primeiro movimento é simples e, por isso, perigoso. Ele oferece uma saída fácil para um desejo que não quer assumir, e ela aceita a chance de mudar de rumo sem precisar negociar com o passado. A decisão tem consequência imediata porque cria uma promessa implícita, ainda que ninguém a formule direito. Quando os espaços se cruzam, a tentativa de manter versões separadas da mesma história encontra um obstáculo material, pessoas demais convivendo no mesmo perímetro, e o que era segredo vira ruído, vira explicação apressada, vira risco real de exposição.
Bastidores como campo minado
A trama avança quando ele tenta preservar a própria imagem com pequenas correções, escolhendo palavras, omitindo nomes, ajustando o tom a cada interlocutor. O problema é que a engrenagem social do teatro não respeita o isolamento. Um encontro puxa outro, uma conversa encurta a próxima, e a diferença entre o que se diz e o que se entende cresce em velocidade de comédia. A cada tentativa de consertar, ele cria mais material para ser cobrado depois, e a cobrança não vem como sermão, vem como presença incontornável.
O humor nasce desse esforço de contenção e do modo como ele falha no instante em que alguém entra pela porta errada, faz a pergunta certa, ou repete em voz alta um detalhe que deveria ter ficado no particular, e então a situação, que parecia sob controle, vira exposição pública, não exatamente por maldade, mas porque ninguém ali tem tempo para proteger a narrativa do outro. Bogdanovich aposta no desconforto como motor de riso, com personagens que improvisam justificativas e tentam salvar a própria dignidade em tempo real, e o efeito imediato é duplo, alivia a tensão por um momento e, ao mesmo tempo, empurra cada um para uma nova mentira.
Desejo, dinheiro e culpa
A comédia romântica aqui não trata o desejo como pura liberdade. Ela mostra o quanto a diferença de posição pesa. Um homem com carreira e família pode tentar enquadrar o episódio como algo que “não vale tanto”, enquanto a mulher do outro lado precisa lidar com as consequências práticas de ter sido vista, nomeada, julgada, ou transformada em história para terceiros. O filme prefere o conflito de curto alcance, o incômodo que aparece numa frase atravessada e muda o clima da sala, porque é nesse nível que a hierarquia se revela sem discurso.
Há também o romance, e ele não é um prêmio. Ele aparece como insistência e teste, em especial quando alguém tenta converter um gesto impulsivo em vínculo contínuo, esbarrando no obstáculo de uma vida já ocupada por outras promessas. O que poderia ser encontro vira negociação. O que poderia ser leveza vira cálculo, e o cálculo desgasta, porque cada lado tenta proteger um pedaço de si, só que a proteção de um costuma exigir silêncio do outro.
Bogdanovich e a velha farsa
O filme se apoia na tradição da comédia de costumes e da farsa de palco, em que entradas e saídas, coincidências e encontros forçados fazem o mundo apertar até ninguém conseguir fingir que não está envolvido. Essa escolha dá ritmo, mas também define o limite do que o roteiro quer encarar. Quando a história se aproxima de temas mais ásperos, como o desequilíbrio de poder entre quem compra e quem é comprado, ela muitas vezes recua para manter o tom de brincadeira, o que preserva a leveza, mas deixa uma inquietação no ar, como se o riso fosse também um jeito de não sustentar a conversa por muito tempo.
No conjunto, Owen Wilson sustenta o papel com a placidez de quem tenta parecer razoável enquanto perde o controle, Imogen Poots dá à personagem uma energia que mistura esperteza e vulnerabilidade, e Kathryn Hahn funciona como força de reação, alguém que não compra a versão pronta e obriga a sala a ficar mais honesta. A graça e o romance nascem quando o filme assume que ninguém ali é apenas vítima ou apenas autor da bagunça, e que a consequência de brincar com versões é ter de escolher uma delas diante de todo mundo, antes que a cortina baixe.
★★★★★★★★★★




