Dirigido por Kogonada, “A Grande Viagem da Sua Vida” traz Colin Farrell e Margot Robbie nos papéis de David e Sarah, duas pessoas emocionalmente estagnadas, que já não vivem a partir da consciência do prazer de estar vivo e fazer escolhas, mas operam quase por instinto. David é resignado, passivo, alguém que aprendeu a aceitar a vida como ela se desenrolou, mesmo que isso tenha custado desejos adiados e caminhos não trilhados. Sarah, por sua vez, vive em estado de alerta permanente: ansiosa, marcada pelo medo de errar novamente, ela tenta controlar o futuro, mas não confia plenamente em si mesma para escolhê-lo.
Eles se conhecem por acaso em um casamento: um ritual social que celebra decisões definitivas, justamente quando ambos parecem presos a existências provisórias. Após o evento, acabam alugando um carro em uma locadora específica, sem saber exatamente no que estão se metendo. O automóvel é um Saturn SL de 1994, equipado com um GPS peculiar que não os leva para onde gostariam de ir, mas para onde precisam estar. Não se trata de desejo ou conveniência, mas de confronto. O filme deixa claro desde cedo que essa não será uma jornada de conforto.
Com roteiro de Seth Reiss, o longa dialoga estruturalmente tanto com Charles Dickens quanto com “De Volta para o Futuro”, embora siga um caminho próprio. Há ecos de “Um Conto de Natal” na ideia de revisitar memórias e possibilidades de vida, mas aqui não existe julgamento moral nem promessa de redenção. As transformações propostas por Kogonada são existenciais, não éticas: ninguém é punido ou absolvido, apenas colocado diante do que evitou sentir.
A comparação com o clássico de Robert Zemeckis ajuda a esclarecer essa diferença conceitual. Se em “De Volta para o Futuro” o DeLorean é uma máquina científica capaz de alterar eventos objetivos do passado, o Saturn funciona como um espaço de suspensão do cotidiano. Ele não muda o mundo ao redor, mas altera o olhar de David e Sarah sobre si mesmos. O tempo, aqui, não é algo a ser consertado, mas refletido.
Ambos carregam formas distintas de luto. David sofre pela vida que nunca ousou viver, pelas possibilidades que descartou antes mesmo de testá-las. Sarah, por outro lado, vive aprisionada pela culpa de não ter se despedido da mãe antes de sua morte, um luto interrompido, que nunca encontrou elaboração. Ao atravessarem juntos trajetórias do passado e daquilo que poderia ter sido, eles não buscam corrigir erros, mas aprender a habitar essas ausências sem fugir delas.
O encontro entre os dois não promete um amor romântico como solução narrativa. O que se constrói é algo mais frágil e mais honesto: a possibilidade de voltar a desejar, mesmo sem garantias, mesmo correndo o risco de errar novamente. O amor surge não como objetivo, mas como consequência de uma abertura emocional que ambos haviam perdido.
Kogonada reforça essa dimensão sensorial com o uso de paletas coloridas, cenas que flertam com o onírico, portas que surgem no meio da floresta e uma sequência musical que parece suspensa da realidade. Esses elementos dialogam com o realismo fantástico e deixam claro que ele não oferece explicações lógicas, mas emocional. A fantasia não serve para escapar da dor, mas para torná-la visível.
“A Grande Viagem da Sua Vida” mostra que viver exige coragem para aceitar o risco de se permitir sentir a felicidade, mesmo sabendo que ela pode não durar. É um filme sobre atravessar o tempo não para mudá-lo, mas para finalmente estar presente nele.
★★★★★★★★★★




