“Depois do Terremoto”, dirigido por Tsuyoshi Inoue e estrelado por Masaki Okada, Yui Narumi e Ai Hashimoto, se organiza em torno de personagens que precisam decidir como viver depois que a estabilidade desaparece. O filme parte de diferentes momentos históricos ligados a grandes terremotos no Japão e acompanha homens e mulheres que, diante da perda ou da ruptura, tentam recuperar algum controle sobre o próprio cotidiano. Não há corrida contra o tempo nem soluções imediatas, apenas escolhas pequenas que acumulam peso e alteram posições pessoais e afetivas.
Komura (Masaki Okada) surge no primeiro segmento como um homem funcional, mas internamente suspenso, logo após o terremoto de Kobe, em 1995. A esposa, profundamente abalada pelas imagens da tragédia, simplesmente vai embora, deixando-o com uma casa intacta e uma rotina sem eixo. Komura aceita um pedido banal para entregar um objeto em outra cidade, e essa decisão prática o coloca em movimento, afastando-o do espaço onde a ausência se impôs. O obstáculo não é externo, mas emocional: ele não sabe o que procura nem o que espera encontrar, e cada conversa pelo caminho apenas confirma que não há retorno fácil ao que existia antes.
O percurso de Komura é filmado sem pressa, e Inoue deixa claro que a viagem não promete revelações grandiosas. O efeito é outro: ao se deslocar, Komura perde o pouco conforto da inércia e passa a lidar com o vazio de forma ativa, mesmo sem resolvê-lo. É um começo silencioso, mas firme, que estabelece o tom do filme.
Caminhos interrompidos
Em outro momento temporal, o filme apresenta Junko (Yui Narumi), jovem que atravessa uma região costeira após o terremoto de 2011. Ela caminha com destino definido, mas encontra estradas bloqueadas e pessoas igualmente desorientadas. Junko tenta negociar caronas e informações, sempre calculando o risco de confiar em estranhos quando os recursos são escassos. Cada tentativa de avançar exige concessões e impõe atrasos, tornando claro que seguir em frente, ali, é uma operação logística e emocional.
Yui Narumi constrói Junko com contenção, evitando explosões de sentimento. A força da personagem está na persistência prática: ela pergunta, espera, insiste e segue. O filme observa essas ações sem julgá-las, deixando que o acúmulo de pequenas frustrações produza efeito concreto sobre sua postura e suas expectativas.
Quando a fé perde função
Outro segmento acompanha Yoshiya, criado em um grupo religioso, também no contexto pós-2011. Ao perceber que a estrutura de crença que o sustentava já não responde às urgências do mundo real, ele decide se afastar. Essa escolha simples desencadeia resistência imediata: pessoas que antes lhe ofereciam pertencimento agora tentam impedi-lo de sair. Yoshiya precisa negociar sua saída e, ao fazê-lo, perde acesso a uma rede que organizava sua vida diária.
O conflito aqui é direto e humano. Não há discursos nem confrontos espetaculares, apenas a dificuldade concreta de romper com um lugar que já não faz sentido. O efeito é uma solidão mais exposta, mas também a chance de reconstruir a própria posição sem intermediários.
Um chamado improvável no presente
O segmento ambientado em 2025 introduz Katagiri (Masaki Okada), agora em outra chave, vivendo em Tóquio com um emprego modesto após uma série de perdas profissionais. Sua rotina é interrompida quando ele reencontra Kaeru-kun, uma figura insólita que o convoca para lidar novamente com uma ameaça sísmica. Katagiri hesita, porque aceitar o chamado significa abandonar a frágil estabilidade que ainda possui. Recusar, por outro lado, mantém tudo como está, mas ao custo de uma vida sem horizonte.
Aqui, Inoue flerta com o estranho de forma controlada, sem transformar o filme em fábula. O elemento fantástico funciona como pressão narrativa: ele encurta o tempo de decisão e obriga Katagiri a avaliar o quanto está disposto a perder ou recuperar. Masaki Okada sustenta bem esse equilíbrio entre ceticismo e exaustão, dando ao personagem um humor seco que humaniza a situação.
Um filme que prefere escutar
“Depois do Terremoto” não busca catarse nem respostas fechadas. Tsuyoshi Inoue aposta num cinema de observação, atento ao modo como pessoas comuns lidam com consequências prolongadas. A montagem respeita o ritmo interno de cada história, e a direção evita sublinhar emoções, confiando no espectador para perceber as mudanças de posição e de escolha.
O resultado é um drama delicado, às vezes irregular, mas honesto. Nem todos os segmentos têm o mesmo impacto, e o filme exige paciência, mas compensa com personagens bem desenhados e atuações contidas. Ao final, o que permanece não é a lembrança do desastre em si, mas a imagem de indivíduos que, mesmo sem garantias, continuam negociando com o mundo ao redor para seguir adiante.
★★★★★★★★★★




