Em “As Torres Gêmeas”, com Nicolas Cage, Michael Peña e Maria Bello, sob direção de Oliver Stone, dois policiais da Autoridade Portuária ficam presos sob os escombros do World Trade Center e precisam resistir até que o resgate consiga alcançá-los. John McLoughlin (Cage) e Will Jimeno (Peña) entram em serviço como em qualquer outro dia, respondem a um chamado e seguem para o complexo, ainda acreditando em controle e protocolo. O colapso interrompe essa lógica de forma brutal, elimina rotas conhecidas e transforma o trabalho em confinamento. O efeito imediato é simples e cruel: não há mais missão externa, apenas a tentativa de continuar vivos.
Stone escolhe acompanhar esse deslocamento de função com sobriedade. Não há pressa em dramatizar o impacto inicial; o choque se impõe sozinho, pelo peso, pela poeira e pelo silêncio que substitui o movimento. A câmera permanece próxima dos corpos imobilizados, e isso muda a percepção do tempo. O resultado é um começo que não busca choque emocional imediato, mas estabelece a dimensão física do problema, impondo ao espectador a mesma espera que passa a reger os personagens.
Resistir exige método e calma
Presos, McLoughlin tenta organizar o pouco que resta em torno de disciplina e controle, enquanto Jimeno reage com inquietação e medo mais visíveis. Essa diferença de postura não cria conflito dramático gratuito; ela funciona como ajuste de sobrevivência. Um fala para manter consciência, o outro economiza voz para não gastar energia. O ambiente responde com dor, desidratação e dificuldade de respirar, e cada escolha cobra um preço. O rádio surge como acesso frágil ao mundo exterior, concedendo esperança curta e sempre instável.
Aqui o filme acerta ao não transformar resistência em heroísmo inflado. O que se vê são tentativas imperfeitas, por vezes falhas, que produzem efeitos pequenos, mas mensuráveis. Agir demais pode piorar a situação; agir de menos encurta o tempo disponível. Stone mantém a encenação seca, evitando trilhas invasivas ou discursos, e deixa que o cansaço dos corpos estabeleça o ritmo. O resultado é uma tensão constante, sustentada mais pelo desgaste do que por picos artificiais.
Do lado de fora, o tempo corre diferente
Enquanto isso, o World Trade Center vira um espaço fragmentado, controlado por perímetros improvisados, ordens sucessivas e informações incompletas. As equipes de resgate negociam cada avanço com o risco de novos desabamentos, e decisões simples exigem autorização e espera. Quando surge um indício de vida, ele não resolve nada; apenas redefine prioridades e desloca recursos. O efeito prático é a concentração de esforços em setores específicos, deixando outros suspensos num limbo operacional.
Stone alterna esses espaços com precisão. Ele corta antes da confirmação, alonga a espera e mantém fora de quadro aquilo que ninguém consegue ver. Ele não diz, mas sugere que a burocracia emergencial pesa tanto quanto o concreto, porque cada checagem retarda o acesso e aumenta o risco. Essa escolha aproxima o filme de um registro quase jornalístico, no qual o drama nasce da lentidão inevitável, não da manipulação emocional.
Famílias à espera de notícias
No eixo doméstico, Allison Jimeno (Maria Bello) enfrenta um tipo diferente de confinamento. Ela busca listas, telefones e informações que nunca chegam completas, lidando com horários imprecisos e confirmações parciais. O obstáculo aqui não é físico, mas institucional e emocional. Cada notícia fragmentada concede fôlego temporário; cada silêncio prolonga a angústia e reorganiza decisões cotidianas. O efeito é uma espera que também exige resistência, ainda que menos visível.
O filme trata esse núcleo com respeito, sem explorar o sofrimento como espetáculo. Há momentos de humor discreto e humano, quase involuntário, que aliviam a tensão por segundos e ajudam a atravessar o dia. Esses instantes não quebram o tom; ao contrário, reforçam a normalidade interrompida. Stone entende que, em situações extremas, rir por um segundo também é uma forma de continuar.
Avaliação e impacto
“As Torres Gêmeas” não é um filme interessado em reconstituir o 11 de Setembro em escala total, nem em oferecer respostas grandiosas. Seu foco é menor, mais específico e, por isso mesmo, mais honesto. Ao concentrar-se em dois homens comuns e em quem os espera, Oliver Stone evita tanto o sensacionalismo quanto a abstração, apostando numa observação direta do esforço humano diante do limite físico.
É um filme irregular em alguns momentos, por vezes excessivamente contido, mas essa contenção funciona como escolha ética e narrativa. Ao não usar exageros e discursos fáceis, a obra preserva a dignidade de seus personagens e do evento que retrata. Fica a sensação de um drama sólido, respeitoso e consciente de seus limites, que prefere acompanhar ações concretas a fabricar emoção pronta.
★★★★★★★★★★




