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Romance de época com Josh O’Connor na Netflix vai te fazer gostar da ideia de se apaixonar novamente Divulgação / Hulu

Romance de época com Josh O’Connor na Netflix vai te fazer gostar da ideia de se apaixonar novamente

Logo cedo, “O Domingo das Mães” mostra Jane Fairchild (Odessa Young), Paul Sheringham (Josh O’Connor) e os patrões de Jane, Sr. Godfrey Niven (Colin Firth) e Sra. Clarrie Niven (Olivia Colman), num domingo de primavera de 1924 em que ambos os casais vizinhos deixam a casa de campo vazia. Jane decide pedalar até a propriedade dos Sheringham para encontrar Paul, com quem mantém um caso secreto apesar do noivado dele com Emma Hobday. Jane escolhe atravessar o caminho de terra sob um céu de nuvens errantes para se sentar à mesa de um almoço interrompido, enfrentando a pulsão de afetos escondidos, o que imediatamente restringe sua posição social e amplia seu risco no cenário de classe fechado. Essa escolha estabelece a tensão básica no início da narrativa.

Ao chegar à casa de Paul enquanto os empregados e parentes estão ausentes, Jane cruza o limiar de um mundo que lhe é negado pelo nascimento órfão e pela hierarquia implícita entre empregada e senhorio. Paul cede à atração, e os dois homens jovens avançam para um encontro físico num ambiente doméstico ainda impregnado da ausência de outros, enquanto o relógio da sala principal pressiona com a iminência de retornos inesperados. A decisão de prolongar o tempo juntos esbarra no fato de que Paul, em breve, deve juntar-se à sua noiva para um almoço familiar, e essa obrigação fixa um prazo impositivo à sua liberdade momentânea. O efeito é imediato: Jane experimenta uma brecha de autonomia que não lhe é habitual, e Paul acumula um risco emocional que o acompanha fora da casa silenciosa.

Enquanto Paul se prepara para sair rumo ao almoço de família com a noiva, Jane explora sozinha as salas vazias da casa, constatando a diferença entre pertencer e possuir espaço. Ela desvenda estantes, livros e objetos que não lhe pertencem, observando a decoração e o rastro de vidas que lhe são socialmente distantes. Essa acumulação de toques e olhares soltos sobre objetos alheios dá forma à sua própria reflexão sobre futuro e perspectiva de autonomia: a casa funciona como recurso provisório de descoberta para Jane. A exploração é interrompida pelo som distante de cavalos e portas batendo, que lhe recordam que sua margem de deslocamento se restringe ao tempo que Paul tem antes de ser esperado no almoço.

O retorno à realidade

Quando Jane enfim deixa a casa dos Sheringham, a pedalar de volta sob o vento que acelera, ela carrega algo maior do que satisfação física: uma noção ampliada de quem ela pode ser fora das regras que a sociedade lhe impôs. A situação de folga e encontro não é apenas um evento isolado; ela altera sua posição psicológica sobre autoestima e ambição. O deslocamento de bicicleta ali funciona como medida concreta de transição entre um padrão de vida determinado por convenções e uma possibilidade mais ampla de autorrealização.

Ao retornar à propriedade dos Nivens, Jane encontra um mundo social que não recua diante de expectativas claras: a noiva de Paul avança em sua relação engajada, e Paul cumpre protocolos familiares com rigor pragmático. A escolha de Paul de seguir adiante, conforme a sucessão de almoços e aparências, impõe a Jane uma realidade social concreta de limitação de acesso a Paul e de imposição de papéis. A diferença de classe, além de afetar seus encontros, se materializa em decisões práticas de quem pode ocupar que espaço e em que momento. Essa clara divisão de papéis exerce pressão mensurável na vida de Jane, que precisa reorganizar seu tempo e seus recursos emocionais.

Rastro de futuro e escrita pessoal

Conforme a narrativa avança, vemos Jane em diferentes fases de sua vida, inclusive mais velha, refletindo sobre aquela tarde que, de fato, alterou o percurso de sua escrita e de sua identidade como mulher e artista. A memória daquela sequência de ações: o encontro, a exploração da casa e o retorno solitário permanece como um recurso narrativo que molda sua posição ao longo do tempo. O efeito duradouro dessa tarde é mensurável não apenas na trajetória amorosa interrompida, mas na forma como ela incorpora aquela experiência para reconfigurar sua profissão e sua autonomia.

O encontro de primavera que abre a história não é apenas um caso de amor secreto; ele é um dispositivo de mudança prática na vida de Jane, cujas decisões concretas naquele domingo transformam seu acesso a oportunidades e sua percepção de quem ela pode ser. 

Filme: Domingo das Mães
Diretor: Eva Husson
Ano: 2021
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★