Logo cedo, “O Domingo das Mães” mostra Jane Fairchild (Odessa Young), Paul Sheringham (Josh O’Connor) e os patrões de Jane, Sr. Godfrey Niven (Colin Firth) e Sra. Clarrie Niven (Olivia Colman), num domingo de primavera de 1924 em que ambos os casais vizinhos deixam a casa de campo vazia. Jane decide pedalar até a propriedade dos Sheringham para encontrar Paul, com quem mantém um caso secreto apesar do noivado dele com Emma Hobday. Jane escolhe atravessar o caminho de terra sob um céu de nuvens errantes para se sentar à mesa de um almoço interrompido, enfrentando a pulsão de afetos escondidos, o que imediatamente restringe sua posição social e amplia seu risco no cenário de classe fechado. Essa escolha estabelece a tensão básica no início da narrativa.
Ao chegar à casa de Paul enquanto os empregados e parentes estão ausentes, Jane cruza o limiar de um mundo que lhe é negado pelo nascimento órfão e pela hierarquia implícita entre empregada e senhorio. Paul cede à atração, e os dois homens jovens avançam para um encontro físico num ambiente doméstico ainda impregnado da ausência de outros, enquanto o relógio da sala principal pressiona com a iminência de retornos inesperados. A decisão de prolongar o tempo juntos esbarra no fato de que Paul, em breve, deve juntar-se à sua noiva para um almoço familiar, e essa obrigação fixa um prazo impositivo à sua liberdade momentânea. O efeito é imediato: Jane experimenta uma brecha de autonomia que não lhe é habitual, e Paul acumula um risco emocional que o acompanha fora da casa silenciosa.
Enquanto Paul se prepara para sair rumo ao almoço de família com a noiva, Jane explora sozinha as salas vazias da casa, constatando a diferença entre pertencer e possuir espaço. Ela desvenda estantes, livros e objetos que não lhe pertencem, observando a decoração e o rastro de vidas que lhe são socialmente distantes. Essa acumulação de toques e olhares soltos sobre objetos alheios dá forma à sua própria reflexão sobre futuro e perspectiva de autonomia: a casa funciona como recurso provisório de descoberta para Jane. A exploração é interrompida pelo som distante de cavalos e portas batendo, que lhe recordam que sua margem de deslocamento se restringe ao tempo que Paul tem antes de ser esperado no almoço.
O retorno à realidade
Quando Jane enfim deixa a casa dos Sheringham, a pedalar de volta sob o vento que acelera, ela carrega algo maior do que satisfação física: uma noção ampliada de quem ela pode ser fora das regras que a sociedade lhe impôs. A situação de folga e encontro não é apenas um evento isolado; ela altera sua posição psicológica sobre autoestima e ambição. O deslocamento de bicicleta ali funciona como medida concreta de transição entre um padrão de vida determinado por convenções e uma possibilidade mais ampla de autorrealização.
Ao retornar à propriedade dos Nivens, Jane encontra um mundo social que não recua diante de expectativas claras: a noiva de Paul avança em sua relação engajada, e Paul cumpre protocolos familiares com rigor pragmático. A escolha de Paul de seguir adiante, conforme a sucessão de almoços e aparências, impõe a Jane uma realidade social concreta de limitação de acesso a Paul e de imposição de papéis. A diferença de classe, além de afetar seus encontros, se materializa em decisões práticas de quem pode ocupar que espaço e em que momento. Essa clara divisão de papéis exerce pressão mensurável na vida de Jane, que precisa reorganizar seu tempo e seus recursos emocionais.
Rastro de futuro e escrita pessoal
Conforme a narrativa avança, vemos Jane em diferentes fases de sua vida, inclusive mais velha, refletindo sobre aquela tarde que, de fato, alterou o percurso de sua escrita e de sua identidade como mulher e artista. A memória daquela sequência de ações: o encontro, a exploração da casa e o retorno solitário permanece como um recurso narrativo que molda sua posição ao longo do tempo. O efeito duradouro dessa tarde é mensurável não apenas na trajetória amorosa interrompida, mas na forma como ela incorpora aquela experiência para reconfigurar sua profissão e sua autonomia.
O encontro de primavera que abre a história não é apenas um caso de amor secreto; ele é um dispositivo de mudança prática na vida de Jane, cujas decisões concretas naquele domingo transformam seu acesso a oportunidades e sua percepção de quem ela pode ser.
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