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Charmoso, triste e luminoso ao mesmo tempo: um filme raro pra ver no Prime Video Divulgação / Amazon Studios

Charmoso, triste e luminoso ao mesmo tempo: um filme raro pra ver no Prime Video

Em Londres, no fim do século 19, Louis Wain tenta manter a mãe e cinco irmãs com ilustrações vendidas a um jornal, negociando preços a cada entrega. Em “A Vida Eletrizante de Louis Wain”, Will Sharpe acompanha Benedict Cumberbatch, Claire Foy e Andrea Riseborough num percurso em que afeto e orçamento disputam o mesmo espaço. O conflito central se fixa quando Louis precisa sustentar a casa e, ao mesmo tempo, proteger o casamento que ele decide assumir. Para segurar o caixa, ele aceita um vínculo mais regular com a redação e prende a rotina da família ao próximo prazo.

Emily chega como governanta para organizar a casa, e o serviço dela dá a Louis um raro alívio: alguém impõe ordem onde só havia improviso. A proximidade cresce em horas roubadas do trabalho, e Caroline reage como guardiã do patrimônio doméstico, cobrando discrição e obediência. Quando o romance vaza para fora das paredes, a família tenta afastar Emily para evitar comentários e gastos extras, e Louis perde o apoio confortável do lar. Ele insiste na relação, banca a decisão com mais encomendas e passa a sustentar dois ambientes sob o mesmo salário.

Um casamento muda o eixo

Casados, Louis e Emily buscam um endereço próprio sem cortar o cordão financeiro com as irmãs, e isso empurra Louis para prazos cada vez mais curtos. Ele aceita frilas e faz promessas otimistas para manter o aluguel em dia, mas a saúde de Emily começa a exigir presença constante e limita deslocamentos. Com a rotina presa dentro de casa, o casal adota o gato Peter, e Louis encontra um modelo que não foge e não cobra: ele desenha o animal em sequência, como quem treina o olhar e tenta segurar o humor do quarto. As imagens viram a nova matéria-prima do trabalho.

Quando Louis leva os desenhos de Peter para a redação, ele ganha acesso a uma vitrine que o trabalho comum não entregava. As imagens chamam atenção e geram pedidos rápidos, e a lista de encomendas cresce justamente quando o tempo do casal encolhe por consultas, cuidados e exaustão. Louis aceita porque a renda é imediata, mas o mercado passa a controlar a casa com datas e formatos fixos, e qualquer atraso vira corte de pagamento. Entre cuidar de Emily, responder às irmãs e cumprir prazos, ele transforma o caderno em linha de produção e troca descanso por mais uma semana de fôlego.

A fama não paga contas

Os gatos se espalham por cartões, anúncios e publicações, e Louis vira figura útil para salões que buscam novidade e para comerciantes que querem imagem simpática. Ele comparece a eventos e aceita o papel de celebridade porque isso promete compradores e encomendas melhores, mas descobre que popularidade não garante contrato justo. Sem registrar direitos e sem impor limites, ele vê reproduções se multiplicarem em mãos alheias, enquanto a família segue presa a dívidas e mudanças de endereço. A exposição aumenta, só que o caixa continua curto e cada convite vem com uma cobrança implícita.

Para recuperar controle, Louis tenta agir como negociante: procura intermediários, participa de reuniões, aprende tarde a linguagem de propriedade e preço. O problema é que cada tarde longe da mesa de desenho é um dia sem entrega, e as contas não esperam maturação. Em busca de um salto, ele aceita levar os gatos a Nova York e vender originais e encomendas em outro mercado, apostando que um público novo pagará melhor pelo mesmo esforço. A viagem rende contato e promessa, mas amplia a distância das irmãs, deixa trabalho pendente e o traz de volta com a produção atrasada.

Quando a pressão fecha portas

De volta à Inglaterra, Louis retoma o ritmo com a sensação de que o chão pode ceder a qualquer semana. As irmãs dependem dele, e imprevistos domésticos viram crises imediatas, de remédio a aluguel, de reforma a despejo anunciado. Uma das irmãs entra em colapso e passa a exigir cuidados fora de casa, e a família precisa reorganizar quartos, gastos e rotina sem margem de sobra. Louis responde com mais trabalho, como se desenhar fosse um amortecedor financeiro, e termina o dia com a casa menor e o corpo mais cansado.

Para continuar vendendo, ele insiste em apresentar os gatos como algo vivo, carregado de energia, e empurra o traço para um registro mais ousado do que o público espera. A promessa de novidade chama atenção pontual, mas muitos compradores pedem exatamente a versão conhecida que cabe em cartão e vitrine, com prazo previsível e preço menor. Entre invenção e encomenda, Louis precisa escolher o que entrega hoje e o que guarda para si, porque qualquer erro custa o aluguel da família. Sem espaço para pausa, ele volta à prancheta e começa outra série, com o relógio do próximo prazo já correndo.

Filme: A Vida Eletrizante de Louis Wain
Diretor: Will Sharpe
Ano: 2021
Gênero: Biografia/Drama/História/Tragédia
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★