Em “Nascido e Criado”, dirigido por Pablo Trapero, Santiago (Guillermo Pfening), Milli (Martina Gusmán) e Josefina (Victoria Vescio) formam uma família que parece ter dominado conforto e ambição; essa harmonia implode quando, em uma estrada que corta o interior argentino, um acidente deixa a esposa e a filha mortas, arrancando de Santiago não só o amor de sua vida, mas também sua voz e posição social, e o empurra rumo ao deserto do Sul, onde passa a trabalhar num aeroporto perdido na Patagônia enquanto luta para manter-se funcional. Alguns elementos de encenação e de percurso são tratados aqui apenas em termos gerais, para preservar precisão e não extrapolar o que está estabelecido.
No aeroporto isolado, Santiago troca a paleta urbana de madeira e tecido por equipamentos de pista e caixas de ferramentas, aceitando um emprego de rotina mecânica que o obriga a manter horários rígidos e checar logs de voo sob ventos que castigam a pista de aterrissagem; a distância crescente de Buenos Aires, onde ainda constroem memoriais improvisados à sua família, torna cada transmissão de rádio e cada caminhão de carga um lembrete de que a reconstrução da vida depende da aceitação da sua própria fragilidade.
Companhia na reclusão
Robert (Federico Esquerro), colega de turno no aeroporto, tenta convencer Santiago a entabular conversas fora de protocolos técnicos, propondo pequenas saídas para beber ou ajeitar equipamentos fora de uso, mas o obstáculo de Santiago em articular mais do que ordens de manutenção revela que a fala cotidiana, até mesmo um pedido simples de café, se tornou um risco calculado: cada palavra que foge ao jargão de trabalho o aproxima do que ele ainda não pode encarar, seus erros na estrada que custaram vidas.
A presença de Cacique (Tomás Lipán), outro trabalhador que navega entre humor áspero e reflexões sobre família, impele uma cena inesperada de intimidade quando, num bar improvisado ao lado da pista, uma tentativa de fuga alcoólica termina em conflito e ressaca, expondo o limite entre camaradagem e autossabotagem; essa noite, junto a questões práticas, horas de serviço, medidas de segurança, e reposição de peças, marca um efeito claro: a sobrevivência de Santiago começa a depender menos do silêncio e mais de interações brutais e reais com outros que também lutam para permanecer no local.
A vastidão gelada da Patagônia, encapsulada por trilhas de vento e horizontes que parecem não terminar, impõe a Santiago não apenas tarefas físicas de conservação do aeroporto, mas um teste de paciência e coragem: checar sinais de radar e coordenar pequenas entregas semanais torna-se um recurso para manter o relógio avançando, uma forma de medir dias que antes se perdiam em lembranças felizes de Milli e Josefina.
Quando Santiago envia relatórios semanais à direção do aeroporto e precisa relatar atrasos causados por tempestades de vento, sua voz, ainda fria e contida, registra uma consequência direta: ele está presente em sua vida profissional de forma contínua, algo que ele imaginou ter perdido para sempre depois do acidente.
Prática e introspecção
Cada gesto de manutenção, desde verificar o nível de combustível dos geradores até limpar neve da pista, traz à tona frustrações não articuladas, levando Santiago a confrontar a necessidade de reconciliar seu passado com as exigências de sua função atual; a estrutura da rotina profissional se converte em um recurso para adiar confrontos interiores, mas também cria a margem pela qual ele pode, passo a passo, recuperar confiança em si mesmo e em sua capacidade de comunicar necessidades além de tarefas mecânicas.
O isolamento não é simplesmente geográfico: ele transforma cada chamada de rádio e cada registro de chegada de voo em um obstáculo à renúncia total, forçando Santiago a manter sua posição no aeroporto sob constante vigilância climática e burocrática, um efeito mensurável que impede o colapso final e o obriga a mensurar dias e noites em vez de esquecer por completo o que perdeu.
No ápice de sua jornada em meio ao vento cortante, Santiago confronta sua própria incapacidade de reatar relações com o mundo fora da pista: ele decide escrever uma carta para o que resta de sua família em Buenos Aires, gesto que funciona como acesso, uma autorização para admitirem seu luto e seu retorno, mesmo que fragmentado, ao âmbito humano; essa tentativa de comunicação registra uma consequência direta: ele admite que não pode viver apenas de equipamentos e planilhas.
Passo adiante
Quanto mais Santiago ajusta luzes de sinalização e corrige coordenadas de aterrissagens sob tempestades anunciadas, mais evidente fica que sua reconstrução depende de pequenos efeitos concretos, repostar um gerador, responder a um pedido de protocolo, ou simplesmente comparecer ao turno no horário marcado, medidas que traduzem perda em produtividade, dor em rotina e, finalmente, memória em ação mensurável.
O aeroporto remoto da Patagônia torna-se não apenas como cenário, mas uma instituição que impõe prazos, regras, checagens e turnos que mantêm Santiago em movimento, reduzindo a vastidão de sua dor a tarefas concretas que, juntas, lhe devolvem posição, poder de decisão e, sobretudo, um calendário finito de dias a cumprir.
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