O que aprendi com “It: Bem-Vindos a Derry” é que não se deve apegar a personagens. A série não apenas mata figuras carismáticas ou aparentemente centrais, como também desmonta, desde cedo, a própria ideia de protagonismo. Em Derry, ninguém é definitivo. O que permanece não são pessoas, mas ciclos.
Com dez episódios, a maioria dirigida por Andy Muschietti, responsável pelos filmes, a série se baseia nos interlúdios do romance de Stephen King para expandir a mitologia da obra sem transformá-la em exposição didática. Em vez de respostas diretas, o que se oferece são fragmentos, lacunas e ecos, como se a própria história estivesse contaminada pelo mal que tenta compreender.
No primeiro episódio, acompanhamos Matty (Miles Ekhardt), um garoto pobre e agredido pelo pai, que foge de casa e desaparece após aceitar uma carona. A sequência, que culmina em seu sequestro por uma família demoníaca, estabelece desde cedo o tom da série: ninguém sai ileso. Seus amigos Teddy (Mikkal Karim Fidler), Phil (Jack Molloy) e Lilly (Clara Stack) tentam investigar o paradeiro do garoto e chegam em Ronnie (Amanda Christine), a última testemunha conhecida. A tentativa de reconstruir os fatos leva apenas a novos desaparecimentos e a um episódio de terror que a cidade rapidamente se esforça para apagar.
A partir daí, o eixo narrativo se desloca para Lilly, uma menina marcada pela morte violenta do pai e por um histórico de internação psiquiátrica. Em Derry, trauma não gera empatia, mas desconfiança. Incapaz de convencer os adultos sobre o que aconteceu com seus amigos, Lilly passa a investigar sozinha os ataques às crianças da cidade, enquanto luta para impedir que seja internada novamente e que o pai de Ronnie, dono do cinema local, seja responsabilizado por um crime que não cometeu.
Ela conquista um novo grupo de amigos: Ronnie, Rich Santos (Arian S. Cartaya), Will (Blake Cameron James) e Marge (Matilda Lawler). À medida que se aproximam da verdade, o horror deixa de ser apenas externo. Alucinações envolvendo pessoas mortas, culpas não resolvidas e medos íntimos passam a persegui-los, sugerindo que o mal de Derry se infiltra nos pensamentos, molda percepções e reorganiza a realidade emocional das vítimas.
Paralelamente, a série acompanha os militares Leroy Hanlon (Jovan Adepo) e Dick Halloran (Chris Chalk), envolvidos em uma investigação institucional sobre um fenômeno sobrenatural que ressurge a cada 27 anos. Sua presença não representa uma promessa de solução, mas o contrário: o fracasso sistemático das estruturas oficiais diante de algo que não pode ser catalogado, contido ou racionalizado. A ciência, o Estado e a hierarquia militar se revelam tão impotentes quanto a polícia local ou a psiquiatria, todas engolidas pelo mesmo mecanismo de negação.
Ambientada nos anos 1960, a série não dá explicações simplistas sobre a origem de Pennywise. O que faz, de forma mais perturbadora, é mostrar que a ausência de respostas também é parte do horror. Pennywise, ou It, não é explicado porque não pode ser plenamente compreendido. Ele é uma entidade primitiva, anterior à humanidade, que assume múltiplas formas e se alimenta do medo. O palhaço é apenas a máscara mais eficiente: algo simultaneamente lúdico e ameaçador, capaz de atrair crianças.
Como King escreve no romance, “o medo tempera a carne”. O ataque nunca é apenas físico. O verdadeiro alimento de It é a energia emocional liberada pelo pânico, e crianças, com sua imaginação ainda intacta, produzem esse medo de maneira mais intensa, caótica e imaginativa. Seu interesse por elas não é carnal, mas existencial.
Há, ao longo da narrativa, a presença de povos indígenas que parecem compreender melhor a natureza desse mal. Eles conhecem rituais, ciclos e portam artefatos, como uma adaga brilhante, capazes de enfraquecê-lo. Esses objetos, no entanto, não funcionam como armas mágicas tradicionais. São manifestações materiais de fé, coragem e crença coletiva. Não possuem poder em si; funcionam porque obrigam a entidade a se manifestar dentro de limites humanos, reduzindo sua abstração.
Dentro desse contexto, mais importante do que Pennywise é a própria cidade. Derry não é apenas o palco dos acontecimentos, mas um organismo vivo, moldado ao longo de décadas para esquecer, negar e normalizar a violência. Tragédias são abafadas, testemunhos desacreditados e memórias coletivas corroídas. Esse esquecimento ativo é uma das ferramentas mais eficazes do mal e explica por que a cidade permanece enquanto suas crianças somem.
Com cenas de terror extremo e uma estrutura narrativa complexa, “Bem-Vindos a Derry” exige entrega do espectador. O que a série oferece é uma expansão densa e inquietante da mitologia de Stephen King, preenchendo lacunas, reforçando ciclos e lançando ganchos que dialogam diretamente com os filmes: não como prelúdio explicativo, mas como eco maldito de algo que nunca deixou de existir.
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