Will Byers, interpretado por Noah Schnapp, passa praticamente toda a primeira temporada preso no Mundo Invertido e, por participar menos dos episódios, acaba transmitindo também uma sensação de ausência narrativa. O vínculo emocional do público se constrói, acima de tudo, com os outros integrantes do grupo e com seus arcos afetivos e românticos: Mike (Finn Wolfhard) e Eleven (Millie Bobby Brown), Joyce (Winona Ryder) e Jim (David Harbour), Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink), o triângulo formado por Nancy (Natalia Dyer), Jonathan (Charlie Heaton) e Steve (Joe Keery), além das amizades que ganham força, como Dustin (Gaten Matarazzo) com Eddie (Joseph Quinn), ou Steve com Robin (Maya Hawke). Nesse emaranhado de relações, Will quase passa despercebido, apesar de seu vínculo profundo e silencioso com Vecna (Jamie Campbell Bower).
É interessante notar como os irmãos Duffer operam uma espécie de rodízio narrativo ao longo da série, deslocando o foco emocional e despertando diferentes interesses do público a cada temporada, ainda que o eixo central permaneça sendo a luta contra Vecna, os demogorgons e o próprio Mundo Invertido. Paralelamente, surgem histórias que ampliam o alcance temático da série: a trajetória de uma mãe solteira que luta para sustentar os filhos e se culpa pelo desaparecimento do caçula; a reconstrução da paternidade de Jim com a filha adotiva, Eleven, após uma tragédia irreparável; reflexões sobre bullying, amadurecimento, amizade, sexualidade e amor na adolescência. São tantas camadas atravessando a narrativa que o público raramente sente tédio.
Na última temporada, porém, os Duffer parecem determinados a provar que Will nunca foi apenas um acessório da trama. Ele não existe apenas como um parafuso substituível de um universo inspirado por Stephen King, John Carpenter e os terrores B dos anos 1980. Will se revela parte essencial do quebra-cabeça, por representar o contraponto moral definitivo a Vecna. Os dois funcionam como lados opostos de uma mesma ferida: ambos carregam o sentimento de exclusão, a sensação de não pertencimento, o deslocamento diante do mundo. A diferença está na escolha ética. Vecna transforma essa exclusão em ressentimento e rejeita o mundo antes que ele o rejeite. Will, ao contrário, silencia, reprime-se e sofre, mas não abdica do desejo de conexão.
Durante anos, o público especulou a possibilidade de Vecna não ser o mal último, mas apenas instrumento de algo ainda maior. Essa ambiguidade se confirma quando o personagem é moralmente confrontado e, diante da possibilidade de escolha, opta pelo pior caminho. Will, por sua vez, torna-se decisivo na luta final, enquanto Eleven se despede, ao menos aparentemente, tanto do Mundo Certo quanto do Mundo Invertido. Resta a Mike oferecer uma última centelha de esperança: a suspeita de que ela possa ter enganado a todos, desaparecendo por meio de um truque final.
O último episódio, lançado pela Netflix no dia 31 de dezembro de 2025, dividiu opiniões. Para mim, a história teve o desfecho que merecia. Foi um final adequado e, talvez, necessário justamente por não entregar o que muitos esperavam. Se tudo tivesse terminado bem, o sentimento de frustração poderia ser ainda maior, afinal, a própria vida raramente se resolve sem perdas. Millie Bobby Brown manifestou seu descontentamento em entrevistas, e não faltaram comparações apressadas com o encerramento de “Game of Thrones”. Ainda assim, “Stranger Things” não traiu sua proposta. Prometeu muito, e entregou exatamente o que precisava. Nada além. Nada aquém.
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