A partir de nossas fraquezas, podemos ser heróis. Quedas levam ao chão, e no chão está a força para se levantar. Verdadeiros heróis nascem de suas contradições, de seus medos, não da vitória. Sophie Scott, uma esquiadora forçada a abdicar da carreira depois de perder a visão tenta reinventar-se como atleta, mas até que consiga, faz um pé-de-meia tomando conta de residências de luxo, e então “Veja por Mim” começa a acontecer. O filme de Randall Okita está quase todo ancorado na figura ambivalente de Sophie, que revela sob a aparência frágil um lado obscuro num suspense sobre novos hábitos e arcaicíssimas delinquências. Espertamente, o diretor fixa-se em sua carismática protagonista, e ela tem o condão de dar veracidade a uma trama artificiosa.
Na introdução, Sophie aparece num diálogo tenso com a mãe interpretada por Natalie Brown, até começar a ir arrumando suas coisas para instalar-se na mansão de Debra, que precisa fazer uma viagem e não tem com quem deixar o gato. O roteiro de Tommy Gushue e Adam Yorke encarrega-se de fornecer ao público elementos que logo obnubilam a imagem de Sophie como a típica mocinha indefesa, e constata-se que ela tem planos de surrupiar uma garrafa de vinho de alguns milhares de dólares sem que sua contratante perceba. Num movimento em falso, todavia, ela fica para fora da casa num dia frio e lembra-se da recomendação da mãe sobre o See for Me, um aplicativo que auxilia deficientes visuais a se deslocar em emergências. Ela é atendida por Kelly, de Jessica Parker Kennedy, uma ex-soldado que agora ganha a vida participando de jogos online, e entre as duas cresce um sentimento fraternal, que Okita esmiúça no segundo ato.
Antes, o diretor conduz a história para um terror psicológico muito bem dosado, e a invasão da propriedade por Otis, Dave e Ernie ocupa um pedaço generoso, ao longo do qual ganham corpo cenas à Hitchcock e Lumet. Um confronto até então somente insinuado se explicita e, novamente, a personagem central é aquela que galvaniza todos os predicados do filme. Portadora de capacidade visual reduzida, Skyler Davenport torce a narrativa a seu gosto, atenta a uma certa displicência moral de Sophie que Okita ressalta sem medo de patrulhas. É um truque manjado, que só funciona se observado um certo ritmo, qualidade essencial nos melhores thrillers.
★★★★★★★★★★




