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Te desejo coisas estranhas Divulgação / Netflix

Te desejo coisas estranhas

Sou cinéfilo. Tenho 60 anos, corpinho de 40 e idade mental de 100. Além de tudo, sou um dissimulado. Deixando o supérfluo de lado: o primeiro filme que assisti este ano, na verdade, não se trata de um filme, mas do último episódio de “Stranger Things”, uma série de TV estadunidense que faz estrondoso sucesso nas plataformas de streaming ao redor do mundo. A trama ambienta-se nos mágicos anos 1980, o que deixa a história bastante atrativa ao público adulto por causa das inferências à música que se tocava à época, ao vestuário, aos cortes de cabelo e aos objetos esquisitos, como a falecida fita K7, por exemplo.

Vários atores começaram as filmagens ainda crianças. Portanto, ao longo da filmagem das cinco temporadas, os cativantes atores mirins crescem e se tornam adolescentes. É legal verificar a transformação física da garotada. “Stranger Things” envolve uma miscelânea de drama, terror, ficção científica e até mesmo comédia, com o advento de monstros, mortes horrendas, romances possíveis, mundo paralelo — na verdade, mundo invertido — e personagens providos de superpoderes. Pelo que pude depreender, desde que descobri “Stranger Things” numa plataforma da TV fechada, a série é vista por crianças — embora a recomendação oficial a classifique como imprópria para menores de 14 anos —, adolescentes e adultos.

Passei por um episódio inusitado e, ao mesmo tempo, divertido, ao debater as percepções, os vaivéns e as expectativas de “Stranger Things”, com um casal de gêmeos de apenas 10 anos de idade. Inteligentes e empolgadíssimos, os pequenos sobrinhos falavam tão rapidamente que pareciam conversar noutro idioma. Ficava difícil para mim acompanhar-lhes o raciocínio. De forma consensual, elegemos Dustin Henderson, interpretado pelo ator Gaten Matarazzo, como o nosso personagem predileto. Sentia-me revigorado, contente e, ao mesmo tempo, ressabiado. Eu agia como um bobo? Curtir uma série televisiva aparentemente voltada ao público jovem era uma “coisa estranha” para um veterano como eu?
Concluí que não, não era estranho. Aproveitei a encantadora resenha com os gêmeos para lhes recomendar filmes de temática natalina, em especial, as comédias, das quais muito gosto. Aliás, aprendi, quem sabe, tarde demais, que a música, a comédia, os desenhos animados antigos e o contato com a natureza exercem sobre mim um efeito calmante e terapêutico. Assim como conviver com pessoas extrovertidas, de riso fácil, do tipo “É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração”, como escreveu o poeta Vinicius de Moraes.

Aproveitando o ensejo poético, o coração iluminado e a falta do que escrever de melhor nesse momento, desejo aos queridos leitores e à minha legião de haters — Vão tomar na peida!, como gritaria o personagem infantil Derek “Idiota” — certas coisas estranhas para o ano novo que ora se inicia: pisar na grana, não pisar nas pessoas, conversar o supérfluo com o motorista, botar para correr as pessoas tóxicas, intoxicar-se de poesia, inspirar o cheiro de tinta que emana de dentro de um livro novo, aparar as sobrancelhas dos seus velhos, remoçar os sonhos, ler para alguém, colorir um álbum, chutar bola no terrão, fazer contas de cabeça, mergulhar num projeto sem fins lucrativos, lavrar a terra com os próprios dedos, aparar as unhas de um doidivanas, brincar na chuva, enlamear-se sem medo de a mãe ralhar, comer fruta no pé, dar uma mãozinha para quem faliu, sofrer demais de amor, cantar no chuveiro, amar menos o dinheiro para que ele lhes traga a felicidade, tragar um cigarrinho de chocolate ao leite, mamar nas tetas da mulher amada, plantar um filho, escrever uma árvore e ter um livro para se chamar de nosso.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.