Em 1995, Komura chega em casa e encontra a esposa ausente, sumiço que transforma qualquer tarefa cotidiana em prova de inadequação; “Depois do Terremoto”, com Masaki Okada, Ai Hashimoto e Erika Karata, dirigido por Tsuyoshi Inoue, põe essa fratura para dialogar com outras três ao longo de três décadas. Quatro desconhecidos atravessam 1995, 2011, 2020 e 2025 tentando sustentar rotina e vínculo enquanto terremotos, violência e pandemia mudam o que parece seguro. Komura tenta seguir o expediente, mas a ausência vira ruído contínuo, e a falta de resposta encurta a paciência dos outros ao redor dele.
Sem conseguir estabilizar o que perdeu, Komura aceita uma tarefa concreta que surge do trabalho: levar uma caixa misteriosa até Kushiro, longe do círculo que o reduz a marido abandonado. O deslocamento resolve o problema imediato de sair do alcance de perguntas conhecidas, mas cria outro, porque a caixa não traz explicação e a cidade devolve apenas relatos oblíquos, incluindo uma história sobre um OVNI que ele ouve como quem tenta testar o próprio senso de realidade. Komura busca sentido em conversas dispersas, esbarra na própria inércia e percebe que, quanto mais ele se move, mais o vazio viaja junto, exigindo novas decisões sem dar garantia.
Fogueira encurta a margem de confiança
Em 2011, Junko vive de movimentos curtos e de decisões que precisam caber no tempo de um ônibus ou de uma carona; ela evita permanecer tempo demais no mesmo bairro para não virar conhecida. Ao encontrar um homem cuja mania é acender fogueiras, ela aceita ficar perto do fogo porque ali existe luz suficiente para olhar o outro sem se comprometer com ele. A pausa funciona como abrigo provisório contra o frio e contra a solidão, mas cobra pagamento: cada pergunta exige uma resposta, e cada resposta aumenta o risco de vínculo, o que obriga Junko a escolher palavras como quem escolhe uma rota.
A conversa vira um teste de limites. Junko mede o quanto pode revelar sem virar personagem fixa na vida de alguém, observa o homem puxar o assunto para perdas antigas e percebe que a troca pode virar armadilha ou alívio, dependendo do quanto ela cede. Ele pede confiança sem oferecer garantias, e o tempo trabalha contra os dois, porque a madrugada encurta a chance de manter a aproximação em terreno neutro. Quando o fogo baixa, a proteção some e a cidade volta a exigir movimento, empurrando Junko a decidir se assume esse vínculo mínimo ou se sai antes de deixar rastro.
Memória desloca a autoridade em casa
Em 2020, um homem adulto revê a juventude passada dentro de um grupo religioso, lembrança que retorna como tarefa urgente quando o presente se estreita. A mãe, devota, passa longos períodos fora de casa, e ele fica com a impressão de que a fé sempre teve prioridade sobre qualquer conversa concreta. Ele decide romper o hábito de aceitar explicações prontas e exige uma versão praticável da própria origem, porque precisa planejar vida, trabalho e relações sem depender de metáforas. A barreira aparece na forma de silêncio e de frases que fecham a conversa, e a consequência imediata é o isolamento dentro do próprio lar.
A educação marcada pela ideia de ser filho de Deus transforma uma falta antiga em pergunta direta sobre o pai, e a resposta, quando aparece, não encerra o assunto. Ele tenta reorganizar a casa com regras novas, procura datas e nomes onde antes havia só promessa e encontra resistência tanto na mãe quanto na comunidade que a cerca. Do lado de fora, um país atravessado por restrições e medo reduz alternativas de fuga: recomeçar exige recursos e rede, e ele não tem nenhum dos dois. A pressão o empurra a escolher um gesto de autonomia que ainda não se traduz em saída, apenas em tensão aberta.
Pedido do sapo impõe prazo
Em 2025, o cotidiano sofre um desvio quando um segurança, Katagiri, recebe a visita de um sapo que pede ajuda para impedir um terremoto. O trabalho dele depende de rotinas e protocolos, e a própria sobrevivência se apoia em cumprir ordens, mas o pedido chega fora de qualquer hierarquia, como um contrato sem testemunhas. Katagiri tenta tratar o encontro como delírio e manter o turno, porém o sapo insiste com um plano e instala uma contagem regressiva que invade o expediente, a rua e o sono, diminuindo a chance de adiar e aumentando o risco de agir sozinho.
Quando Katagiri considera colaborar, o risco muda de natureza: ele precisa se mover sem conseguir explicar a ninguém o que está fazendo, e cada tentativa de buscar validação só amplia a sensação de absurdo. A montagem aproxima esse salto do cotidiano comum, encadeando décadas como se uma crise chamasse outra para dentro da mesma respiração, e isso faz o espectador sentir o tempo como urgência, não como lembrança. Katagiri age com cautela para preservar emprego e sanidade, mas o prazo curto elimina a possibilidade de esperar por prova definitiva, e ele termina a noite já comprometido com uma escolha que aumenta o custo do próximo dia.
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