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Para começar o ano em clima de romance, assista esse filme que vai acalentar seu coração, na Netflix Divulgação / Touchstone Pictures

Para começar o ano em clima de romance, assista esse filme que vai acalentar seu coração, na Netflix

Ronnie Miller chega a Tybee Island carregando uma hostilidade que antecede qualquer paisagem. A jovem, interpretada por Miley Cyrus, não está apenas deslocada geograficamente, mas emocionalmente entrincheirada. Nova York permanece como ideia de identidade, enquanto a pequena cidade costeira funciona como punição imposta por uma mãe cansada de lidar sozinha com o ressentimento da filha. O pai, Steve Miller, vivido por Greg Kinnear, surge como a figura que concentra todas as frustrações não resolvidas. A separação do casal, jamais devidamente digerida, vira narrativa simplificada de abandono na mente de Ronnie, e o filme constrói essa animosidade inicial sem pressa, permitindo que o atrito seja incômodo, quase áspero.

A adolescência aqui não é tratada como fase graciosa ou rebelde por estética, mas como um estado de defesa permanente. Ronnie reage antes de compreender, agride antes de escutar, e esse comportamento molda sua relação com o pai e com o espaço que a cerca. Miley Cyrus, ainda presa a certos automatismos de atuação, sustenta essa rigidez com honestidade suficiente para tornar a personagem crível. Não há carisma fácil, tampouco suavização artificial do conflito. O desconforto inicial é parte essencial do percurso.

A música como língua interrompida

Steve Miller carrega uma doença que não anuncia, uma culpa que não verbaliza e um afeto que tenta reorganizar em silêncio. Greg Kinnear constrói esse homem a partir da contenção, recusando qualquer dramatização óbvia. A relação com a música, especialmente o piano, funciona como memória compartilhada e ferida aberta. Foi ali que pai e filha se encontraram no passado, e é justamente esse território que Ronnie rejeita como gesto de autoproteção.

A recusa da música não é capricho narrativo, mas sintoma. Ronnie abandonou o piano no mesmo instante em que decidiu congelar o vínculo com o pai. A reconstrução dessa linguagem comum ocorre aos poucos, sem discursos edificantes, sustentada por ações pequenas e pela insistência silenciosa de Steve. A narrativa entende que reconciliações verdadeiras raramente acontecem em grandes gestos; elas se infiltram no cotidiano, quase sem pedir licença.

O papel de Jonah na estrutura emocional

Jonah Miller, interpretado por Bobby Coleman, funciona como eixo afetivo do filme. Seu personagem não serve apenas como contraponto leve, mas como espelho emocional de tudo aquilo que os adultos não conseguem dizer. Jonah observa, sente e reage com uma transparência que desmonta qualquer defesa. Bobby Coleman entrega uma atuação surpreendentemente precisa para sua idade, sem recorrer à fofura programada ou à teatralização do sofrimento.

É por meio de Jonah que o filme articula sua dimensão mais honesta. Ele não carrega rancor, apenas saudade e desejo de pertencimento. Sua relação com o pai é menos contaminada por narrativas de culpa, e isso permite que o espectador enxergue Steve por um ângulo mais generoso. Ao mesmo tempo, a ligação entre Jonah e Ronnie atua como força silenciosa de transformação, empurrando a protagonista para fora da bolha de autocomiseração em que se refugiou.

Romance, previsibilidade e honestidade

O envolvimento entre Ronnie e Will Blakelee, interpretado por Liam Hemsworth, não tenta reinventar códigos do romance adolescente. O filme aceita sua previsibilidade sem pedir desculpas, apostando mais na função emocional do relacionamento do que em qualquer surpresa estrutural. Will surge como figura de transição, alguém que permite a Ronnie experimentar vulnerabilidade sem o peso do passado familiar.

Chamar essa trajetória de previsível ignora uma característica essencial do gênero: histórias de amadurecimento não dependem de reviravoltas, mas de reconhecimento. “A Última Canção” aposta na empatia, não no choque. Seu impacto não nasce da originalidade do enredo, mas da forma como organiza perdas, reconciliações e escolhas inevitáveis. Ao final, o que permanece não é a soma dos clichês apontados por críticos apressados, mas a sensação de que certos afetos só se tornam compreensíveis quando o tempo já cobrou seu preço.

Filme: A Última Música
Diretor: Julie Anne Robinson
Ano: 2010
Gênero: Drama/Musical
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★