Suspense sobrenatural tailandês de 2004, dirigido por Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom, “Espíritos: A Morte Está ao Seu Lado“ está disponível atualmente na Netflix. A narrativa acompanha Tun, vivido por Ananda Everingham, um fotógrafo que se vê cercado por aparições inquietantes depois que ele e a namorada Jane, interpretada por Natthaweeranuch Thongmee, atropelam uma jovem e fogem sem prestar socorro. A trama cresce sobre esse gesto inicial, que funciona como uma espécie de rachadura moral onde a culpa infiltra tudo, até a luz.
O filme voltou ao catálogo da plataforma e ganhou uma segunda vida entre espectadores que não acompanharam a onda do terror asiático dos anos 2000. A redescoberta trouxe debates renovados sobre o impacto daquele cinema que consolidou uma estética própria para o medo, especialmente no sudeste asiático, onde fantasmas carregam memórias sociais e feridas íntimas em igual intensidade.
Condução magistral do medo
Reassisti assim que entrou na Netflix e o que mais me chamou atenção foi a frieza calculada com que os diretores conduzem o desespero. Não há pressa, não há exagero. A atmosfera pesa como se cada fotograma guardasse o eco do atropelamento, um acidente que, na prática, nunca termina. A fotografia tremida de Tun, os borrões que desafiam a nitidez e aquela figura que insiste em se infiltrar nos cantos mais banais das imagens criam um tipo de assombro que não depende da trilha sonora para funcionar. Em alguns momentos, tive a sensação incômoda de que a câmera não estava a serviço do personagem, mas de algo que se aproveita dele.
O filme tem algo que o distingue de outros thrillers recentes: a forma como o filme transforma o corpo em território político e emocional, sem jamais anunciar isso em voz alta.
A culpa como linguagem
O coração da narrativa está na relação fraturada entre Jane e Tun. O atropelamento não surge como um mero dispositivo para colocar o enredo em movimento. Ele funciona como uma revelação do que ambos evitam admitir: a covardia de Tun, sustentada por escolhas anteriores que ele preferiria enterrar; e a hesitação de Jane, que tenta racionalizar o irracional até quando já é impossível. À medida que fotografias começam a capturar interferências cada vez mais explícitas, o terror se transforma em uma espécie de gramática da culpa. As distorções deixam de ser falhas técnicas e passam a compor um vocabulário que a câmera insiste em repetir, como se dissesse que o passado é tão fotográfico quanto o presente.
Os diretores trabalham essa ideia com rigor quase clínico. A intrusão espectral não está restrita a aparições repentinas, mas se espalha pelos espaços vazios, pelas sombras que deveriam ser inofensivas e pelas portas que nunca se abrem no tempo certo. Tudo parece registrado em um silêncio denso, como se o filme aguardasse a confissão que Tun nunca oferece.
O corpo como arquivo
Nos minutos finais, quando a verdade finalmente é revelada, o filme deixa evidente seu interesse menos óbvio: o fantasma não é apenas uma presença vingativa, mas um corpo que guarda o peso de tudo aquilo que foi silenciado. Natre, interpretada por Achita Sikamana, não aparece como figura abstrata; ela reivindica existência, memória e nome. É nesse ponto que o longa se afasta de tantos outros títulos do gênero que flertam com sustos fáceis. A revelação não opera como mero choque, e sim como uma inversão ética que reorganiza toda a narrativa.
O último plano, que envolve Tun literalmente submetido ao passado que tentou apagar, carrega uma força simbólica rara. É um gesto visual que sintetiza o que o filme discute desde o início: a culpa não desaparece, apenas muda de lugar. E quando finalmente encontra um corpo para repousar, não larga mais.
O filme pode ter envelhecido menos suavemente em alguns artifícios, mas sua espinha dorsal continua firme. Talvez porque fale menos sobre espíritos e mais sobre aquilo que cada um tenta esconder, inclusive de si mesmo.
★★★★★★★★★★


