Ornella Vanoni morreu e ninguém me avisou. Sou como o traído da piada, o último a saber, muito por ainda estar vivendo entre 1920 e 1935. Pois não é que Ornella Vanoni morreu há quase duas semanas e somente hoje eu recebi essa notícia?
Para quem ainda torce o nariz quando ouve Roberto e Erasmo Carlos, “Sentado à beira do caminho” é um bom antídoto antipreconceito, e a versão de Vanoni para essa canção, “L’Appuntamento” (a versão original, não outras com arranjos moderninhos), é a cura final. Doem, ambas, num sótão escuro da mente ou num cômodo esquecido do coração. E Vanoni ainda gravou outros artistas brasileiros, Vinicius e Toquinho, por exemplo.
Viveu bem, a italiana: 91 anos e milhões de álbuns vendidos. Eu, de minha parte, creio que primeiro a ouvi numa vitrola antiga, incluída entre o que se tocava repetidamente na casa da minha infância: a música dita clássica, Chico Buarque, Mercedes Sosa e pouco mais — talvez por isso eu ainda seja um homem de revisitas, repetições, insistências, retornos. Vá saber.
Reencontrei-a, por assim dizer, quando assisti a “Anos Rebeldes”, agora com “Senza Fine”, também na versão primeira, creio — e ainda ouço sistematicamente essa canção e revejo partes da minissérie, quase sempre a cena em que Malu Mader olha as fotografias de sua turma de juventude, nós já sabendo tudo o que se passara com aqueles “amigos da vida toda”: morte pela ditadura, traições, amores perdidos.
Bom, me perdi. De volta à grande Vanoni — em sua homenagem, este domingo será de appuntamento com ela, até porque “Ho sbagliato tante volte ormai che lo so già / Che oggi quasi certamente / Sto sbagliando su di te”.
