O melhor filme de Natal de 2025 chegou à Netflix e já é o mais assistido do mundo, em 92 países Rob Baker Ashton / Netflix

O melhor filme de Natal de 2025 chegou à Netflix e já é o mais assistido do mundo, em 92 países

Uma loja de departamentos londrina se apronta para a noite mais movimentada do ano, com vitrines cheias e corredores abarrotados. É nesse cenário que “Feliz Assalto!”, dirigido por Michael Fimognari e estrelado por Olivia Holt, Connor Swindells e Lucy Punch, apresenta a aliança improvável entre dois trabalhadores explorados que resolvem transformar o próprio local de trabalho em alvo de um roubo natalino, equilibrando a necessidade urgente de dinheiro com uma tentativa arriscada de recuperar alguma dignidade.

Sophia vende perfumes e bolsas ouvindo metas cada vez mais irreais. Ela aceita dobrar turnos, cobrir colegas, sorrir para clientes hostis, porque precisa pagar aluguel e dívidas atrasadas. Nick instala o sistema de segurança da loja, passa noites mexendo em cabos e códigos, confia que será pago no fim do serviço. Quando descobre que foi simplesmente ignorado pelo patrão, percebe que o trabalho inteiro virou calote. Os dois chegam à mesma conclusão prática e emocional: foram tratados como descartáveis.

A decisão de roubar a loja nasce primeiro como desabafo, quase fantasia dita em voz alta ao fim de um turno. Conforme conversam, no entanto, a ideia começa a ganhar contornos de plano. Sophia conhece os fluxos da casa, sabe quais portas ficam destrancadas, em que horários os gerentes somem para reuniões e quando o estoque permanece mais vulnerável. Nick domina o painel de câmeras e os alarmes recém instalados. Cada um tem uma peça do quebra-cabeça. A motivação é nítida, o obstáculo também: nenhum dos dois tem experiência real com crimes.

O filme assume então o eixo do procedimento. Há etapas traçadas, cronogramas, testes e ensaios discretos no meio da rotina. Eles decidem aproveitar o caos da véspera de Natal, quando o movimento intenso, os carrinhos abarrotados e o som alto das músicas dificultam qualquer fiscalização rigorosa. Para isso, precisam garantir um carro de fuga, descobrir a melhor rota de saída, manipular algumas câmeras e, principalmente, esconder de colegas e familiares o que estão fazendo. Cada ensaio revela uma falha nova. Uma porta não abre, um sensor apita, um funcionário aparece na hora errada.

Enquanto o plano se complica, o relacionamento entre os dois se aproxima. O filme trabalha o romance como consequência do crime em gestação. A confiança vira um elemento tão importante quanto os códigos do sistema de segurança. Sophia se pergunta até onde pode acreditar num homem que vive de improviso e promessas técnicas. Nick hesita em se comprometer com uma parceira que, no fundo, tem mais a perder se tudo der errado. As conversas entre eles alternam ironia, sedução e pequenas confissões sobre medo de fracassar outra vez.

A direção de Michael Fimognari faz escolhas discretas para mostrar esse processo. As cenas de planejamento acontecem em espaços apertados, como depósitos, corredores de serviço, escadas estreitas. É ali que eles decidem detalhes do golpe, sempre cercados por caixas, cabides e equipamentos que lembram a origem da revolta. Nos andares de loja, as cores são quentes, as luzes são fortes, o som de jingles natalinos preenche o ambiente. Quanto mais os anúncios prometem felicidade e consumo, mais claro fica o contraste com os salários congelados e a insegurança profissional.

Lucy Punch encarna a chefe que concentra a antipatia da história. Ela demonstra afeto apenas diante de clientes importantes e investidores, cobra resultados em público e inventa justificativas para atrasar pagamentos. A personagem toma decisões que empurram os protagonistas para o roubo, ao negar reconhecimento mínimo ou qualquer reparação. Ao mesmo tempo, sua presença constante no ambiente cria risco concreto: ela circula pelos setores, faz perguntas, olha relatórios, acompanha números de vendas. Qualquer falha de comportamento de Sophia ou de Nick pode despertar suspeita antes da hora.

O ponto de maior risco dramático ocorre quando uma fiscalização externa aparece de surpresa, e o plano precisa ser mantido ou abandonado em questão de minutos. Sophia está na loja, cercada por clientes e por supervisores atentos. Nick está perto do painel de segurança, com acesso a imagens que podem entregá-los. Eles precisam decidir se avançam mesmo assim, comprometendo definitivamente o próprio futuro, ou se recuam, aceitando o prejuízo financeiro e moral. O filme dedica tempo a essa hesitação, mostrando as expressões, os olhares, o peso da escolha.

Do ponto de vista do humor, “Feliz Assalto!” aposta em situações de constrangimento e em pequenas inversões de poder. Funcionários zombam discretamente do patrão, clientes exigentes tropeçam, alarmes disparam na hora errada. As piadas raramente são cruéis, o que mantém o filme em uma zona segura. Quando o roteiro se aproxima de uma crítica mais aguda ao trabalho precarizado, recua alguns passos, encaixa uma piada, uma frase espirituosa, uma situação romântica. O resultado preserva a leveza esperada de uma comédia natalina, mas nem sempre aproveita o potencial dramático do material.

O romance entre Sophia e Nick funciona melhor quando se ancora nos detalhes de classe. Ela sabe quanto custa cada peça da loja em horas de trabalho próprio. Ele calcula quanto perdeu com o calote e imagina quantos reparos domésticos poderia pagar. As declarações não aparecem em grandes discursos. Surgem em frases breves, em observações sobre clientes que não olham para os funcionários, em comentários sobre noites mal dormidas. Quando os dois riem juntos de um absurdo, o espectador entende que essa cumplicidade é tão importante quanto o dinheiro do assalto.

No fim, o filme equilibra previsibilidade e curiosidade. O espectador reconhece a estrutura de comédia romântica natalina, com seus encontros, desencontros e lições moderadas, mas encontra também o retrato de uma dupla que decide agir contra uma injustiça concreta, ainda que pelo caminho errado. A loja continua brilhando, as vitrines permanecem cheias, o sistema segue favorecendo quem manda. O que muda, pelo menos naquela noite, é a decisão de dois rostos anônimos de não aceitar o papel de enfeite no cenário de Natal.

Filme: Feliz Assalto!
Diretor: Michael Fimognari
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★