Candidato ao Oscar 2026: único filme injustiçado de Dwayne Johnson acaba de chegar sob demanda ao Prime Video Divulgação / A24

Candidato ao Oscar 2026: único filme injustiçado de Dwayne Johnson acaba de chegar sob demanda ao Prime Video

Nos anos finais da década de 1990, um wrestler de rosto ainda juvenil atravessa corredores estreitos rumo ao octógono, cercado por câmeras, empresários e técnicos que falam todos ao mesmo tempo. Em “Coração de Lutador: The Smashing Machine”, Benny Safdie filma Mark Kerr, vivido por Dwayne Johnson, no momento em que ele parece ter conquistado exatamente o que queria: vitórias em sequência, contratos melhores, respeito no circuito. Ao lado, Dawn, interpretada por Emily Blunt, administra a vida doméstica instável, as viagens, as contas e uma cadeia de pequenas e grandes discussões. O conflito central nasce da tentativa de manter esse topo por tempo suficiente para garantir segurança financeira enquanto o corpo pede anestesia, a cabeça flerta com o colapso e a relação amorosa se torna ao mesmo tempo refúgio e ameaça.

Safdie escolhe contar essa ascensão a partir de decisões concretas: aceitar ou não um torneio no Japão com regras mais duras, topar ou recusar uma bolsa de apostas duvidosa, tomar ou adiar a próxima dose de analgésico. Kerr decide, repetidamente, avançar. Ele aceita lutas em sequência porque enxerga nelas a chance de ser o grande nome do esporte e de sair da precariedade em que cresceu. A motivação é cristalina, quase banal na sua ambição. O obstáculo está na soma de microcontusões, promessas de pagamento atrasadas e uma indústria que exige que o lutador esteja sempre pronto, sempre maior, sempre mais agressivo. A cada vitória, o efeito é duplo: o mito “Smashing Machine” cresce, mas o homem Mark fica um pouco mais encurralado.

Em casa e nos quartos de hotel, a narrativa desloca a atenção para Dawn. A relação entre os dois ocupa o centro da biografia tanto quanto os treinos. Ela decide permanecer ao lado de um homem que alterna doçura e fúria, promessas de mudança e recaídas visíveis, porque também vê naquela rotina uma forma de escapar da própria história e de compartilhar, ainda que de modo desigual, a glória e o dinheiro que entram. Ele, por sua vez, tenta conciliar gestos de cuidado — um pedido de desculpa, um carinho distraído depois da luta — com a incapacidade de abrir mão de comprimidos que aliviam dores antigas. O obstáculo é a própria dinâmica do casal, alimentada por festas, noites longas, discussões em carros e quartos abafados. O efeito é tornar indistinguíveis, para o espectador, os limites entre amor, dependência e conveniência.

À medida que as conquistas se acumulam, o filme passa a registrar as fissuras do personagem com o mesmo rigor que dedicava aos golpes certeiros. Em conversas com o técnico Mark Coleman e com dirigentes do Pride, Kerr decide jogar duro na negociação de cachês, consciente de que muitos colegas foram explorados. Ele exige contratos mais transparentes, pede bônus prometidos, questiona cláusulas. A motivação é não ser apenas mais um corpo descartável num circuito que sempre encontra outro lutador disposto a entrar no ringue por menos. O obstáculo é um sistema pouco interessado em dividir poder com quem apanha de verdade. O efeito dramático é empurrá-lo para a margem entre o atleta admirado e o funcionário incômodo, aquele que começa a ser visto como problema.

Quando a dependência química assume lugar mais visível, o filme evita discursos explicativos e se concentra em rotinas. Mark acorda atrasado, mistura comprimidos na mesma mão, decide treinar mesmo quando mal consegue ficar em pé, mente para Dawn sobre quantidades. Ele toma essas decisões porque não vê saída fácil: sem analgésico, não luta; sem lutar, perde renda, status, identidade. O obstáculo é o corpo, que já não responde como antes, e o entorno, que, em vez de interromper o ciclo, prefere administrá-lo para manter o espetáculo em funcionamento. Em determinado momento, a overdose quase casual deixa claro que o risco não é mais apenas perder um cinturão, e sim perder a própria continuidade da vida.

Há um trecho em que o filme adota ritmo quase telegráfico. Treino. Banheira de gelo. Corte na sobrancelha. Discussão. Ligação do empresário. Treino de novo. Consulta médica apressada. Promessa de que será a última vez. Outro voo para o Japão. Tudo é curto, seco, quase mecânico. A decisão de seguir adiante parece automática, resultado de anos de condicionamento. A motivação declarada continua sendo a mesma — ser o melhor, garantir futuro —, mas o obstáculo real já é a incapacidade de imaginar qualquer coisa fora desse ciclo. O efeito é uma sensação de fadiga que contamina não só o lutador, mas também quem acompanha, como se o filme quisesse que o público sentisse um fragmento da exaustão que mantém aquele homem girando no mesmo lugar.

A segunda metade da obra se organiza como curva de queda. Depois de uma tentativa de reabilitação, apoiada por um novo técnico, vivido aqui por um Ryan Bader contido e pragmático, Kerr passa a treinar de forma mais metódica, aceita reduzir compromissos, tenta reconstruir confiança com Dawn. Ele decide apostar na possibilidade de um novo começo, mesmo sabendo que o mercado prefere histórias de retorno espetacular, não processos lentos. A motivação é recuperar algum controle sobre o próprio corpo e sobre a própria narrativa. O obstáculo, previsível e ainda assim contundente, é a insistência do passado em reaparecer na forma de convites tentadores, antigos amigos de festa, dores que atrapalham o sono. O efeito é transformar cada pequeno sucesso num equilíbrio precário, sempre sujeito ao próximo tropeço.

No ponto de maior risco, Safdie concentra seu cinema de caos controlado em uma luta decisiva, montada com saltos temporais, close em respirações curtas, idas e vindas entre o som do público e um ruído interno quase ensurdecedor. Kerr entra no ringue com o corpo menos preparado do que gostaria e a cabeça cheia de imagens de Dawn, hospitais, dívidas, entrevistas. Ele decide entrar mesmo assim, porque recuar naquele momento significaria, para ele, aceitar publicamente que terminou. A motivação é preservar a identidade construída ao longo de toda a carreira, mais do que ganhar um prêmio específico. O obstáculo está em cada golpe recebido, em cada segundo extra de luta que seu corpo precisa suportar. O efeito imediato é mais existencial que esportivo: depois daquela noite, qualquer caminho possível terá de ser percorrido por um homem que já sabe exatamente o quanto pode ser quebrado.

Na reta final, “Coração de Lutador: The Smashing Machine” evita o arco clássico de superação limpa e prefere acompanhar Mark em espaços menos espetaculares — vestiários vazios, quartos silenciosos, estacionamentos quase desertos após o fim do evento. Johnson constrói um sujeito que, mesmo gigantesco em quadro, parece encolher um pouco a cada conversa sobre contas, tratamentos, novos contratos. As decisões ali são menores, quase burocráticas: assinar ou não um papel, aceitar ou recusar mais uma luta, telefonar ou não para alguém que ficou para trás. A força do filme está justamente em recusar um fechamento triunfal, deixando o lutador numa encruzilhada em que nenhuma escolha apaga o que já foi feito com o corpo e com a cabeça, apenas determina sob qual luz essas cicatrizes continuarão a ser vistas.

Filme: Coração de Lutador: The Smashing Machine
Diretor: Benny Safdie
Ano: 2025
Gênero: Ação/Biografia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★