Logo de início, o filme acompanha um amanhecer cinzento em um internato afastado, onde meninos considerados casos perdidos fumam escondidos no pátio enquanto um diretor caminha pelos corredores repetindo mantras de encorajamento para si mesmo. Em “Steve”, dirigido por Tim Mielants e estrelado por Cillian Murphy, Jay Lycurgo e Tracey Ullman, esse diretor de escola reformadora luta, ao longo de um único dia, para manter o colégio aberto e, ao mesmo tempo, não desmoronar diante dos próprios fantasmas psicológicos.
A narrativa se ancora nesse prazo invisível: a possibilidade real de fechamento, reforçada por avisos do conselho e pela chegada de uma pequena equipe de reportagem interessada em imagens rápidas de decadência. Steve decide encarar o dia como se ainda fosse possível convencer todos de que aquele lugar merece existir, marca assembleias improvisadas, revisa relatórios, ensaia discursos diante do espelho. A motivação é proteger os alunos de um sistema que só enxerga números; o obstáculo aparece em cada buzina no portão, em cada ligação truncada, em cada olhar de desconfiança trazido de fora.
Dentro dos dormitórios, porém, a lógica é outra. Shy, o estudante que concentra a maior parte da atenção do filme, vive dividido entre explosões de violência e uma fragilidade que tenta esconder atrás de piadas e silêncios. Steve escolhe aproximar-se desse rapaz com uma mistura de firmeza e ternura, oferecendo tarefas, responsabilidades, pequenas promessas de futuro além dos muros. Ele age assim porque acredita que uma boa decisão num dia ruim pode evitar décadas de cadeia. O obstáculo é a pressão dos outros funcionários, que enxergam em Shy apenas risco, e a própria exaustão do diretor, já perto do colapso.
A pressão institucional aparece em detalhes que não precisam de explicação. Um corredor com pintura descascando, uma sala de professores cheia de xícaras vazias, um campo de futebol onde a grama cede lugar a lama sugerem anos de abandono oficial. A direção opta por uma câmera muito próxima dos corpos, quase sempre em movimento, que registra respirações aceleradas, pequenos tremores de mão, olhares que evitam contato direto. Essa escolha traduz a sensação de vigilância permanente que paira sobre funcionários e alunos, obrigados a provar, minuto a minuto, que merecem mais tempo antes da sentença.
Em certo ponto, o que parecia apenas uma sucessão de reuniões, advertências e rotinas começa a se fragmentar. Há um aviso de inspeção antecipada, um boato sobre corte imediato de verbas, uma tentativa de fuga por parte de alunos que não suportam mais o confinamento. Steve toma decisões rápidas demais, promete o que não tem certeza de cumprir, recorre a improvisos administrativos e emocionais para manter o prédio em pé por mais uma noite. Ao fazer isso, compra tempo, mas também encurta os próprios limites, confundindo estratégias de cuidado com reflexos de controle.
Há um trecho em que a narrativa acelera. Portas batem. Sirenes se aproximam. Vozes sobem. Ninguém escuta direito. Menino corre. Outro cai. Um professor tenta separar. Steve intervém e grita por calma. Ninguém atende. A sequência, montada com cortes secos e som áspero, marca o ponto de maior risco, físico e simbólico: ali se decide se o colégio seguirá como abrigo possível ou será selado como problema descartável.
Mais adiante, o filme desacelera e volta a se concentrar na interioridade de Steve, em diálogos breves com colegas mais velhos e em encontros rápidos com uma representante do conselho. Ela funciona ao mesmo tempo como elo com o mundo exterior e lembrete do alcance daquele trabalho para além dos muros. Ele precisa escolher se aceita uma saída antes que tudo desabe ou se permanece até o fim. A motivação é uma ética pessoal marcada por culpa; o obstáculo, reconhecer que, ao insistir em carregar tudo sozinho, pode repetir o abandono que sempre criticou.
Em um dos acertos de Tim Mielants, a rotina do internato ganha textura específica quando a câmera acompanha o grupo de garotos pelos corredores e pátios, registrando breves momentos de cumplicidade em meio ao caos. Brincadeiras, músicas improvisadas, comentários sobre a televisão ligada na sala comum lembram que aqueles adolescentes ainda são, antes de qualquer prontuário, meninos tentando testar quem são e que futuro podem imaginar. Essa decisão impede que o filme se reduza à descida solitária de um adulto em direção ao esgotamento.
Ao mesmo tempo, há um desequilíbrio assumido na maneira como o roteiro distribui atenção entre Steve e os estudantes. A narrativa insiste na subjetividade do diretor, em suas crises silenciosas, em lembranças sugeridas, enquanto oferece aos jovens apenas flashes de história, o que pode frustrar quem esperasse mergulho mais profundo em cada um deles. Em termos dramáticos, porém, essa escolha reforça a sensação de que o sistema olha rapidamente para esses meninos e passa adiante, mantendo-os em segundo plano até mesmo numa obra dedicada a denunciar essa prática.
No bloco final, quando a possibilidade de fechamento deixa de ser rumor e se torna ameaça palpável, a atuação de Cillian Murphy ganha peso ainda maior. O personagem toma decisões que beiram o improviso desesperado, tenta proteger Shy e os demais de consequências imediatas enquanto negocia com figuras de autoridade que só enxergam orçamento e risco jurídico. Cada frase dita no corredor aumenta o custo emocional desse esforço. O fecho evita tanto a redenção fácil quanto o desastre explícito, encerrando o dia com uma imagem ambígua que preserva a pergunta sobre o futuro da escola e desses meninos.
★★★★★★★★★★


