Um homem de terno, filho pequeno e apartamento bem organizado recebe, de repente, a visita do irmão que sempre viveu à margem, carregando mochila, livros sobre crimes famosos e um entusiasmo deslocado. Em “Manson Family Vacation”, dirigido por J. Davis e estrelado por Jay Duplass e Linas Phillips, o reencontro entre esses dois adultos funciona como gatilho para uma viagem estranha por locais associados à história de Charles Manson. O conflito central nasce do choque entre o fascínio quase infantil de um deles por esse passado violento e a tentativa do outro de proteger a família, a própria imagem e um resto de afeto fraterno.
O protagonista mais estável decide, a contragosto, embarcar no passeio quando percebe que expulsar o irmão logo na chegada significaria repetir antigos gestos de rejeição. Ele aceita tirar um dia de folga, entra no carro, programa o GPS para endereços que preferiria nunca ver e tenta encarar tudo como excentricidade passageira. A motivação é aliviar a culpa acumulada por ter seguido em frente enquanto o outro ficou preso em empregos temporários e quartos alugados. O obstáculo aparece assim que estacionam diante da primeira casa, onde moradores atuais convivem com a sombra de crimes antigos e curiosos atravessam a calçada tirando fotos. O efeito imediato é um mal-estar que mistura vergonha, medo de estar fazendo algo errado e a constatação de que não há mais limite claro entre recordação histórica e entretenimento.
Conforme o dia avança, a viagem pela cidade assume contornos de tour clandestino. O irmão obsessivo decide incluir novos pontos no mapa, insiste em entrar em propriedades, tenta conversar com vizinhos, menciona detalhes de depoimentos e datas como quem recita letras de música. Ele age assim porque enxerga nesse roteiro um jeito de dar sentido à própria sensação de deslocamento, quase como se a “família” do título fosse, de fato, uma alternativa para a que nunca sentiu completamente sua. O outro, preso ao papel de adulto responsável, tenta estabelecer regras, proibir invasões, controlar o tempo das paradas. O obstáculo é a incapacidade de prever até onde o companheiro está disposto a ir para completar o itinerário imaginado desde a adolescência. O efeito é um acúmulo de pequenas transgressões que empurram os dois para fora da zona de conforto, tanto física quanto moral.
Aos poucos, conversas no carro e em quartos baratos expõem a rachadura antiga que sustenta essa dinâmica desigual. Quando a adoção de um deles é lembrada, não como dado administrativo, mas como ferida que nunca cicatrizou, a viagem se desloca de mera fixação por um assassino para revisão de um álbum familiar incompleto. O irmão que se sente peça avulsa decide que precisa entender por que sempre foi tratado como intruso, mesmo depois de oficialmente incorporado à família. O que move o outro é a vontade de defender os pais ausentes e, ao mesmo tempo, de escapar do papel de mediador eterno. O obstáculo é que nenhuma explicação racional basta diante de décadas de comparação silenciosa, de fotos de infância em que um aparece sempre na ponta do quadro. O efeito é transformar placas de rua e portões comuns em gatilhos para discussões sobre pertencimento.
Em determinado momento, o roteiro desloca a ação para fora da cidade, rumo a um retiro no interior, onde um grupo de pessoas se reúne em torno de livros, fotos e discursos que tratam os antigos crimes como espécie de mito. O irmão errante decide acompanhar esses encontros, curioso com a possibilidade de finalmente encontrar uma comunidade que o acolha sem reservas. A motivação é evidente: se a família oficial nunca o enxergou por inteiro, talvez esse coletivo de aficionados por um passado sombrio ofereça reconhecimento total, ainda que distorcido. O outro aceita ir junto por medo de deixar o parente em situação que beira culto. O obstáculo é notar que, naquele espaço, qualquer crítica à idolatria do criminoso é recebida como falta de compreensão espiritual. O efeito é um clima cada vez mais desconfortável, em que piadas e referências pop já não mascaram o risco.
Há um trecho em que tudo se comprime em gestos curtos. Portão que se abre. Olhares atravessados. Mala que encosta no chão. Silêncio no banco de trás. Um pedido para ficar. Um pedido para ir embora. Ninguém sabe direito qual verbo escolher. As frases são rápidas, diretas, às vezes rudes. A decisão precisa ser tomada ali, sem muita elaboração, porque o carro está ligado, o dia acaba, o celular vibra com recados da esposa deixada para trás. E, ainda assim, a escolha feita nesse minuto altera anos de ressentimento acumulado em jantares em família.
Do ponto de vista formal, J. Davis aposta em uma encenação discreta, que aproveita luz natural, ruas comuns, casas como centenas de outras na região de Los Angeles. Ele decide não estilizar a violência, não reproduzir cenas de crime, não exagerar cores ou ângulos. A motivação é manter o foco no deslocamento entre irmãos e nas conversas que têm enquanto dirigem, entram em lanchonetes, discutem em quartos simples. O obstáculo é trabalhar com um tema saturado na cultura norte-americana sem recair no fascínio que pretende questionar. O efeito, na maior parte do tempo, é um desconforto moderado, que lembra o espectador da presença constante daquele nome, daquela história, mesmo quando nada explícito aparece em quadro.
Há, também, uma camada de observação social em chave baixa. Ao mostrar como lojas vendem lembranças, como motoristas oferecem trajetos alternativos para ver pontos “históricos”, como pessoas comuns pedem selfies e repetem frases decoradas sobre o passado, o filme sugere que parte da sociedade transformou tragédia em mercadoria sem perceber completamente o que isso significa. Os irmãos, ao circularem por esses espaços, tomam decisões opostas: um se diverte, se deixa fotografar, participa do jogo; o outro recua, se calado, tenta sair rápido. O obstáculo para qualquer reconciliação plena é justamente essa diferença de postura diante do sofrimento alheio transformado em roteiro turístico. O efeito é deixar claro que as divergências entre eles não se limitam à biografia, mas incluem visões incompatíveis sobre empatia e limite.
No fecho, “Manson Family Vacation” permanece interessado menos no destino de um culto improvisado e mais na forma como dois homens adultos vão definir, a partir daquela viagem, que tipo de irmão desejam ou conseguem ser. Não há grandes discursos, nem acertos definitivos. O que se vê é um conjunto de decisões pequenas, tomadas no asfalto, em estacionamentos vazios, em salas de aeroporto, que determinam se os dois continuarão ligados apenas por um sobrenome e por um passado mal resolvido ou se conseguem inaugurar outra forma de convivência, mais honesta sobre o peso de carregar, ao mesmo tempo, fascínio e vergonha.
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