O ponto de partida de “A Garota Canhota“ é menos uma situação extraordinária e mais a constatação de que certas rotinas familiares carregam tensões capazes de moldar silenciosamente cada membro do núcleo. Shu-Fen, interpretada por Janel Tsai, retorna a Taipei com as duas filhas, I-Ann (Shih-Yuan Ma) e I-Jing (Nina Ye), buscando recomeçar depois do colapso financeiro que se intensifica quando o ex-marido adoece gravemente. Esse retorno não significa apenas reorganizar contas e horários; implica confrontar expectativas antigas, sobretudo as dos pais de Shu-Fen, que enxergam a educação das netas por meio de códigos tradicionais, quase sempre alheios à precariedade que orienta o cotidiano da mãe.
A narrativa segue o trio em movimentos paralelos que, aos poucos, se entrelaçam. I-Ann trabalha como betel nut beauty, tentando juntar dinheiro sem admitir o quanto a exploração simbólica desse ofício a fere. A relação que estabelece com um homem casado não nasce de ingenuidade, mas de um desejo torto de afirmação, uma tentativa de encontrar algum controle num ambiente que a trata como descartável. I-Jing, por sua vez, transforma a própria mão esquerda em inimiga depois de um acidente traumático e das falas supersticiosas do avô, que repete com convicção que a mão dominante revela tendências desviantes. A criança internaliza a sentença com uma literalidade que só a infância comporta, e o medo cresce em proporção direta ao isolamento que ela mesma impõe.
Essas trajetórias ganham volume quando Shu-Fen, exausta pela sobrecarga, tenta manter seu pequeno negócio de comida no mercado noturno. Brando Huang compõe Johnny, vendedor cuja barraca vizinha funciona como contraponto: ele lida com o mesmo ambiente de incerteza, mas reage com uma energia leve que contrasta com a rigidez da família de Shu-Fen. A convivência cotidiana cria uma espécie de trégua emocional e abre espaço para conversas que, mesmo breves, reorganizam prioridades dentro da mãe, sobretudo diante das culpas que ela tenta administrar sem alarde.
O filme se constrói a partir de pequenas rupturas, e uma das mais marcantes envolve as duas irmãs caminhando pela feira noturna. I-Ann, até então impermeável a qualquer gesto de cuidado, deixa escapar uma frase que transforma a compreensão que tínhamos dela. A mudança não vem como revelação melodramática, mas como percepção tardia de que a adolescente busca uma forma de proteger a irmã e, ao mesmo tempo, testar a própria capacidade de reparação. I-Jing, atenta às brechas de afeto que consegue identificar, reage com uma combinação de brincadeira e cautela, o que amplia a tensão entre vulnerabilidade e convivência.
O longa avança sem pressa, acumulando elementos que explicam por que cada personagem reage de determinada maneira ao ambiente que os rodeia. A precariedade econômica não aparece como discurso, mas como prática diária: contar moedas, evitar atrasos, negociar favores, tolerar comentários que ultrapassam limites. Esse conjunto pressiona todos os vínculos, inclusive os que Shu-Fen mantém com os próprios irmãos, sempre atravessados por comparações e cobranças que dizem mais sobre expectativas culturais do que sobre os fatos concretos da vida dela.
A partir desse acúmulo, o desfecho ganha peso. Um episódio envolvendo as filhas força Shu-Fen a reconsiderar o modo como vinha lidando com as dores das meninas e com as próprias frustrações. A sequência final não formula soluções amplas nem oferece consolo fácil. A escolha é outra: demonstrar que certos laços se mantêm porque sobrevivem às fissuras, não porque eliminam conflitos. I-Ann, I-Jing e Shu-Fen continuam longe de qualquer ideal de harmonia, mas encontram uma forma mais sólida de coexistir. Essa estabilidade provisória diz mais sobre maturidade do que sobre vitória.
“A Garota Canhota“ concentra sua força justamente no modo como trata cada personagem sem caricatura. A diretora Shih-Ching Tsou articula os movimentos internos do trio com observação paciente, permitindo que as contradições se acumulem até revelarem algo mais profundo: a permanência dos vínculos nascidos da responsabilidade mútua. É nesse equilíbrio entre desgaste e resistência que o filme encontra sentido, sugerindo que, mesmo quando o cotidiano parece ruir, ainda existe espaço para gestos que reorganizam a vida de forma discreta e duradoura.
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