O último dia de aula se aproxima quando duas melhores amigas do ensino médio, vistas como referência acadêmica e fracasso social, descobrem que os colegas que passavam o tempo em festas também conquistaram vagas em boas universidades. Em “Fora de Série”, dirigido por Olivia Wilde e estrelado por Beanie Feldstein, Kaitlyn Dever e Jessica Williams, a comédia acompanha as duas quando, movidas pelo choque e pelo medo de terem sido ingênuas, decidem condensar em uma única noite toda diversão supostamente sacrificada, expondo a amizade, a reputação cuidadosamente construída e a crença rígida na meritocracia escolar.
Durante anos, Molly e Amy optaram por seguir cada regra, acumular atividades, corrigir trabalhos, liderar campanhas estudantis. Fazem isso porque acreditam ser a única forma de escapar de um futuro estreito e, de quebra, manter certa vantagem moral sobre o resto da turma. O obstáculo irrompe quando ouvem, num banheiro cheio, que aqueles colegas que tratavam como casos perdidos também vão para boas faculdades. O efeito é quase físico, como se alguém puxasse o tapete sob a narrativa que as sustentava, removendo de repente o conforto de ter sempre “feito tudo certo”.
A partir daí, a véspera da formatura vira jornada pela cidade. Sem saber o endereço exato da grande festa, elas decidem cruzar Los Angeles em busca do ponto de encontro, aceitando caronas improváveis, convites suspeitos e pistas pouco confiáveis. A motivação imediata é provar que também sabem se divertir; por baixo disso, está o impulso de reescrever o próprio mito de garotas certinhas. O obstáculo aparece em cada parada, quando códigos sociais não ditos definem quem pertence a qual grupo. O efeito é um percurso fragmentado que revela microterritórios da escola fora da sala de aula, cada um com hierarquias próprias.
Em cada casa visitada, decisões se multiplicam. Ficam ou saem. Contam a verdade ou fingem intimidade antiga. Aceitam experimentar o que nunca tocaram ou preferem observar à distância. A motivação constante é compensar o que consideram atraso sem comprometer totalmente o futuro desejado. Os obstáculos mudam: uma festa em barco menos glamourosa do que prometido, um jogo de perguntas que expõe inseguranças, um encontro com colegas artistas que oscilam entre autenticidade e autopromoção. O efeito acumulado é redesenhar, com humor, o mapa de afinidades e ressentimentos daquele microcosmo adolescente, deslocando quem ocupa o centro e quem fica de lado.
Olivia Wilde monta essa noite como série de espaços que pedem códigos diferentes, mas mantém a câmera perto o bastante das protagonistas para que o espectador permaneça trancado em sua bolha emocional. A comédia muitas vezes é física, feita de portas que se abrem na hora errada, figurinos que destoam do ambiente, celulares que tocam tarde demais. Tudo depende de decisões mínimas: ir ao banheiro, cruzar um corredor, responder ou não a uma mensagem. A motivação é controlar minimamente a própria narrativa. O obstáculo é o relógio acelerado, que transforma qualquer vacilo em história que circulará por anos. O efeito é um ritmo urgente, cortado por breves pausas de respiração em que as duas medem o que ainda podem conquistar antes do amanhecer.
O eixo muda quando a amizade, até então apresentada como inabalável, entra em colapso diante de todos. Numa festa com piscina, depois de mal-entendidos românticos, Molly e Amy discutem cercadas de colegas que fingem não ouvir, mas acompanham cada frase. De um lado, a acusação de que uma sempre comandou a vida da outra; do outro, o ressentimento por nunca ter sido levada totalmente a sério. Cada uma decide, ali, dizer o que vinha engolindo há anos. A motivação das duas é finalmente ser ouvida. O obstáculo é o orgulho acumulado em uma parceria desigual. O efeito é um silêncio pesado que suspende a comédia por alguns instantes e revela uma dor mais funda do que qualquer piada sobre notas altas.
Separadas, elas continuam em rota, agora por caminhos distintos. Amy decide arriscar um gesto romântico e aceita consequências sociais e legais que antes pareceriam impensáveis, movida pela sensação de que aquela pode ser a última chance de experimentar algo fora do papel de consciência moral. Molly tenta recuperar controle, circulando entre festas e carros, determinada a reparar o estrago sem admitir culpa. Em cada movimento, o obstáculo é o tempo que resta até a cerimônia de formatura e o círculo de boatos que cresce em volta dos nomes das duas. O efeito é uma madrugada em que reputação, desejo e projeto de futuro se entrelaçam de maneira incontornável.
O elenco coadjuvante funciona como pequeno mosaico da escola. Há colegas escandalosos que escondem vulnerabilidade, uma professora que flerta com a turma enquanto coleciona frustrações, a amiga rica que transforma qualquer reunião em performance extravagante. Cada personagem decide ocupar um papel específico para sobreviver àquele ambiente, seja como palhaço oficial, seja como figura misteriosa. A motivação é chegar ao último dia do ano sem ser engolido pelos rótulos. O obstáculo é o julgamento constante, amplificado por telas e fofocas instantâneas. O efeito é mostrar que nenhuma caricatura dá conta da complexidade desses adolescentes, inclusive das protagonistas, que também precisam rever as histórias que contam sobre si.
Quando o dia seguinte chega, a questão já não é apenas se elas conseguiram ir à festa certa ou provar algo para os colegas. O que está em jogo é a possibilidade de seguir rumo às universidades sonhadas sem apagar a confusão afetiva e ética vivida nas horas anteriores. As personagens precisam decidir quanto da antiga persona estudiosa desejam carregar para a nova fase e quanto daquela noite caótica permanecerá como lembrança incômoda ou referência de liberdade. A motivação continua ligada a futuro e lealdade. O obstáculo é a impossibilidade de voltar ao ponto de partida. O efeito, inscrito em olhares de despedida e gestos pequenos, sugere que amadurecer talvez signifique aprender a conviver com versões contraditórias de si mesma.
★★★★★★★★★★


